segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Capítulo 18 - "A Passagem Secreta"

 

Na manhã seguinte, Ian Poler se apresenta para trabalho. Procura Andy por todos os lados sem encontrá-lo. Isso toma um tempo considerável em tão colossal castelo, porém o mestre sabe os locais de preferência de seu aluno: a biblioteca, o gabinete de trabalho, seu quarto, o haras, o lago, o bosque…
Nada do príncipe. Estranha.  
Na volta ao interior do Palácio, acaba por esbarrar com o seu colega de Conselho, Uli, notavelmente abatido, a quem pergunta:
– Campbell, viste o príncipe esta manhã? Ele não costuma sair tão cedo antes de comunicar-me.
As mãos do Conselheiro vão de encontro aos seus ombros, que são apertados de forma aflita:
– Poler, ainda bem que eu te encontrei! Eu precisava contar isso a alguém!
     – Contar o que? – o cenho de Poler se contrai gravemente, seu coração toma um ritmo acelerado.
Os dois se retiram da sala de recepção pegando a saída dos fundos onde têm acesso ao jardim central. Próximos ao imenso chafariz, barulhento o suficiente para evitar que alguém desavisado escute o que não deve, Uli confidencia a Ian tudo o que ocorreu na noite passada. Poler não se conforma:
– Eu não posso acreditar! Ele ainda é uma criança! Como pudeste ter chamado o carrasco, Uli? Devias ter tentado impedi-lo de algum jeito! Enlouqueceste junto com o rei??
– Eu estava confuso! Pensei que se contrariasse o rei numa hora daquelas, iria acabar com tudo nas minhas costas! Seria eu que teria ido parar na masmorra, talvez! Não sei! – torce os dedos nervosamente – Mas numa hora dessas, eu até preferia, viu? Nunca tive tanto remorso na vida...
Ian queria estrangular seu colega nesse momento. Até visualiza a cena, comprimindo os olhos, concentrado no lenço pomposo enrolado no pescoço de Campbell: puxaria as pontas dele e apertaria bem forte!
Não, não quer matá-lo, quer apenas que ele acorde! Quer puni-lo por ser tão passivo e mole, por ser tão... covarde! Suspira profundamente com o maxilar travado, fazendo o máximo para se segurar. Não é hora de perder a cabeça, pelo contrário, é hora de agir. A culpa é do rei e apenas dele.
– Há alguma maneira de tirar meu pequeno de lá?
– Talvez. Mas pelo humor de Sua Majestade, será dar murro em ponta de faca, meu amigo. Eu sinto muito.
– Não, eu não posso deixar isso assim! Tomarei providências agora mesmo!
– Não, Poler! – tenta impedi-lo, mas Ian sai com passos rápidos e decididos – Eu não devia ter contado nada para ele... O rei vai me matar.

     Poler persegue o rei implorando:
– Ele simplesmente ainda não sabe o que fala!
– Eu fiz isso para ele aprender mais rápido.
     – Deus Pai, isso é absurdo!
– Agora eu sei com quem ele aprendeu a falar alto daquele jeito, Senhor Poler. Me dê licença, pois o que aconteceu ontem à noite já foi o bastante para minha cabeça.
            – Mas, Majestade...
            – Chega, ouviu bem? – fala numa rispidez assustadora – E da próxima vez que quiser sua opinião, eu o procurarei. É para isso que eu te pago. Agora, se retire.
            – Sim, Majestade. – termina, cuspindo veneno, o Conselheiro.
            Sai querendo derrubar as paredes. Pega o caminho de volta ao Jardim torcendo para não encontrar mais ninguém. Aperta tanto as mãos que chega a enfiar as curtas unhas na carne. Dói. Mas não tanto quanto imaginar seu filho adotivo sendo torturado por uma coisa tão tola.
Ora, mesmo que fosse grave! Poler se sente o pai dele e lhe machuca imaginar que não estava lá para protegê-lo quando ele precisou, e que mesmo agora não pode fazer nada. Comprime os lábios, sente a garganta trancar. Há quantos anos não se permite chorar? Quer ficar só.
Atravessa as cortinas de véus que levam ao Jardim Oeste, parte anexa ao Jardim Central, mas mais reservada. Um pequeno e silencioso paraíso sob sacadas de onde escorrem trepadeiras abundantes. Ladeando o formoso caminho de pedras, dois pequenos veios d’água cantam e perfumam o trajeto para se encontrarem mais adiante e formarem uma doce cascata artificial. Então seguem totalmente para fora do prédio e desaguam no imenso lago. Os cavalos bebem desses veios. Os funcionários refrescam os ouvidos com seu som tão manso. Os Conselheiros vêm se esconder do resto do mundo ali. Ou pelo menos era o que acontecia hoje.
Poler sai do caminho de pedra, pula o veio d’água de sua direita, passa até os bancos de descanso e se esconde abaixo da gigantesca trepadeira de brincos-de-princesa.
Passando as mãos em suas folhas e cheirando suas flores, Poler inspira fundo, fecha os olhos, tentando tirar esse nó de sua garganta, nem que fosse se permitindo chorar de uma vez. Por que é tão difícil?
Distrai-se demais. Quase cai em um buraco bem escondido por lá. Estranha: é um buraco grande demais, como nunca o percebeu ali? Quem o cavou? Por quê? Olha mais atrás e percebe que havia virado a estátua da Deusa, sem notar. “Passagem secreta, em pleno Jardim Oeste? Não posso perder essa...”, pensa. Olha para os lados e não vê nenhum jardineiro. Senta-se no chão e pula ali dentro. Há uma escada logo à frente, não muito escura. Ele a desce ouvindo seus passos reverberando nas paredes.
            É em espiral e não tão longa quanto esperava. Há uma tocha na parede do lado esquerdo, com uma gárgula a segurando. Poler toca-a e ela deita com facilidade, fechando o buraco lá de cima com um ruído grave.
Rrrrooorh...
 Conclui: “Agora já sei como sair”.
Pouco depois, mais abaixo, encontra uma porta, que parece dar acesso a um lugar mais iluminado e mais quente. O Conselheiro vai até lá e entra devagar na tal sala: tem muitas cortinas velhas e é toda rodeada por velas acesas, um cheiro suave de incenso, alguns rabiscos nas paredes que ele não entende o que possam significar à primeira vista.
Só.
Poler olha em volta, bate o salto da bota no chão e o barulho que faz é seco. Tem certeza que não tem ninguém, fala alto:
            – Velas? Tantos rodeios só para chegar em uma sala redonda cheia de velas?!
            – Andy? – pergunta uma voz fraca e velha, vinda de trás de uma cortina.
            Poler leva um susto. Pergunta rápido:
            – Quem és?!
            – Ora, que pergunta boba, meu filhote. – responde a voz – Trouxe as velas que eu pedi?
            – Que velas?
            – Mas você nunca esquece… – diz a velha abrindo a cortina, quando de repente nota o seu engano – Você não é o Andy… quem é você?
            – Eu é que te pergunto: quem és e o que estás fazendo neste Jardim?

***

Andy está com frio. Vapor sai de sua boca. Pão e água foram colocados lá enquanto dormia. Tem muita fome, mas mal consegue se mover para pegá-los. A dor domina o seu corpo.
Já há uma grossa casca de sangue coagulado em cima das feridas do chicote e seus pulsos estão completamente roxos. Não está tendo nenhum tratamento especial, o chão onde está deitado é o mesmo dos prisioneiros rebeldes de seus ancestrais e não duvida que jamais em toda história tenha sido lavado com algum empenho.
Será o primeiro príncipe a misturar seu sangue à urina seca de ratos e assassinos? Ele que apenas ergueu a voz em nome de sua liberdade? As mãos que até hoje trabalharam para ajudar seu avô e para encher o interior do Palácio de melodias, mereciam ser esmigalhadas assim?
            – Mãe... Socorro... – suspira lutando para as lágrimas não caírem.
Andy detesta chorar. Nesta situação, chorar seria como dar a vitória a Lucius, pelo menos em sua opinião: ele quer vê-lo amedrontado, implorando por misericórdia, choroso e manso. Não, ele não… Ele aguenta a barra, não aguenta? Soluça, incerto da conclusão.
Queria vingar-se, se pudesse. Com certeza, naquele momento, se estivesse frente a frente com seu avô e com a energia necessária, era o que ele faria.
Tenta esquecer essa ideia terrível e comer o pão que lhe trouxeram. Sabia do esquema da masmorra: aquilo não seria só o seu café, como seria seu almoço e sua janta.
            Ele estica o braço ferido e tenso e agarra o único e pequeno pão. Com os dedos ralados ele arranca um pedaço e põe o resto na bandeja. Põe o pedacinho na boca e mastiga devagar, faz voltar o que quase engoliu e mastiga tudo de novo, para enganar o estômago na medida do possível.
Tinha aprendido isso com o pai, na época que não tinha nem o que comer em casa, por causa da colheita perdida. Viviam dividindo pouco, quase nada, com os vizinhos. Comia absolutamente tudo que lhe fosse oferecido, até raízes verdes, até… carne.
            Naquela época aprendeu o que é a fome, e, com isso, a ser verdadeiramente humilde. Depois sua aldeia conseguiu se recuperar aos poucos e logo novas colheitas floresceriam. Mesmo assim, nunca esqueceu o valor da humildade e aposta que toda sua família também, mesmo agora tendo do bom e do melhor.
Minha nossa, como sua vida tinha mudado. Ele nunca esperou que fosse acabar lá: príncipe. E que o seu maior problema não fosse ser o governo nem as guerras e sim a futura noiva, que ele nem mesmo conhece, mas da qual já pegou asco.
Refletir estava sendo ótimo, fazia muito tempo que Andy não parava para lembrar-se do que foi, comparar com o que é. Ele sonha: “Como minha mãe reagiria a me ver crescido? A me ver vestido de tecidos bordados, montado em cavalos de raça, gerenciando centenas de funcionários. Como ela se sentiria a me ver nesse momento, tratado como criminoso, dormindo entre os ratos…?”, suspira. Se sente só. Daria tudo para estar em casa, cortando palha, tirando leite... Cansado, mas feliz.

***

            Poler conversa com a sua nova amiga:
            – Quer dizer que a senhora sempre esteve aqui? Desde a construção do palácio?
           – E já havia nascido muito antes! Sabe, não é fácil descobrir um esconderijo sozinha, com passagens secretas e tudo mais, você precisa de ajuda! Quem me ajudou foi Timothy Minton, um dos projetistas chefes do Palácio de Pedra. – diz orgulhosa.
            – Quantos anos tem a senhora? – pergunta impressionado.
            – Se não me engano… se bem que com a minha idade eu não posso mais confiar na minha memória, – ri – devo ter meus novecentos e alguma coisa. E você, pelo contrário, me parece muito jovem. Te dou... vinte anos, acertei?
            – Não, longe. – sorri certo que foi uma exagerada gentileza dela ­– Eu tenho quarenta e um.
– Minha nossa, e eu achei que eu não aparentasse a idade! – brinca a simpática senhora.
Poler sorri e entra na brincadeira:
            – Eu te daria cinquenta!
Ela ri:
            – É muito gentil, senhor...
            – ...Poler. Ian Poler, sou o Primeiro Oficial político, Terceiro Conselheiro Real, professor nas horas vagas. Não que mereça tantos títulos, mas fazer o que se só sei trabalhar?  – diz apertando sua delicada mão.
            – Tem a mão forte e quente, meu jovem. – elogia a senhora – Mãos como essas são de pessoas com muita força interna. Mãos de pessoas que nasceram com uma grandeza inigualável. E creio que em você, minha teoria se encaixa perfeitamente.
            – Grato. Creio que deves estar aqui por uma razão muito especial, estou certo?
            – Como sempre, meu rapaz.
            – O que fazes aqui, isolada?
            – Ora, medito, tento achar respostas de questões que só serão feitas por pessoas de mãos como as suas, que merecem me encontrar para tê-las. Eu era conhecida como a Conselheira Extraoficial dos primeiros reis, mas depois todos que me conheciam morreram, eu não era mais conhecida como nada! – ri – Foi um felizardo em me encontrar aqui, pois só o príncipe, e agora você, me conhecem por aqui e podem ter minhas respostas.
            – Tem uma resposta que eu gostaria muito de ter neste momento. – lamenta Poler – Como coisas assim podem acontecer com as pessoas boas?
            – Não entendo, Ian. Afinal, o que aconteceu com meu filhinho?

3 comentários:

Pedro Roscoe disse...

bom dmais MAAAAAA!!!!! perfect!

Vanda Maria Meireles Matiazi disse...

Má você conseguiu mostrar toda a beleza e atitude de Andy neste desenho. Esta parte dois está demais , as emoções a flor da pele do lindo príncipe literalmente, que avô horrível .não é a toa que Jason sumiu no mundo,sem deixar vestígios.

Vanda Maria Meireles Matiazi disse...

Estou adorando conhecer os personagens através das ilustrações de Má .é muito melhor juntar nossa imaginação com os desenhos pois assim eles se tornam mais "vivos" na história, e vamos cada vez mais conhecendo Elderwood e seus surpreendentes personagens. Este livro nos levará para lugares inacreditáveis .