segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Capítulo 17 - "A Torre Sul"

 

Dois dias se passam.
Fugindo do comportamento usual, um mensageiro entrega três cartas para Campbell depois do jantar e do recolhimento de todos. O Conselheiro entra no palácio lendo o remetente. Ganha chá e senta-se em uma poltrona, ainda compenetrado.
– Majestade! – chama, assim que o avista – Responderam vossas cartas!!
– Que cartas, Campbell? – responde de lá de cima o rei já de roupão e roupas de dormir – As para os novos proprietários?
– Não, as do Duque de Carmim, da Duquesa do Lorjiss – ele ri e comenta, gesticulando – aquela do nariz quebrado, e do Conde de Vilanova. Lembrais? Para casar o Andy.
– Mais cartas?! Minha nossa! – desce as escadas – Estão respondendo todas, Uli!
– Esse vosso neto vai vos dar muito trabalho.
– O que você esperava? Olhos verdes em dois metros de altura!
Uli não estava se envolvendo na questão, mas já que parecia inevitável, abre bem os olhos azuis claríssimos e diz em bom ânimo:
– Quereis um palpite, Majestade? Entre todas as jovens disponíveis, eu o casaria com a filha mais nova do Conde Harmand. O nome dela é Rose. É uma verdadeira princesa, Majestade, precisais ver que linda. Além de ser inteligente e prendada. É a esposa perfeita para Andy. Podeis confiar: pedis uma visita.
            – Se é o que está dizendo, pegue uma pena e responda...
            – “Andy rejeita sua filha”, ponto. – diz Andy, enfezado.
O rapaz tinha ouvido tudo, seu olhar condenava-os, o cenho tão baixo que quase cobria os olhos. Ele se aproxima e continua:
– “Meu neto revolta-se profundamente quando o tratam como gado reprodutor, vírgula, ou quando brincam de casinha com sua vida”, ponto final. “Por isso, vírgula, vão para o inferno você e suas filhas” exclamação.
Uli se envergonha, mas o rei não:
– Ignore, Uli. Nesta sala tem um jovenzinho que ainda não entendeu quem manda aqui.
Mas Andy não aceita ser ignorado, não tratando desse assunto:
– Ah, é? Então não quer discutir isso numa assembleia? Porque você, Majestade, tem uma porcentagem limitada de poder nesse lugar.
– Muito mais que você, por sinal!
– Eu mando na minha própria vida! Nela eu exijo poder total!
– Aí que você se engana! Meus avós cuidavam das minhas decisões e hoje eu sou muito feliz! Com meu posto, com minha esposa...
– Tem certeza? – seu tom é cínico – Tem certeza de que o senhor é feliz? Ou foi omissão no momento de escolher? – e desafia – É tão acomodado, meu avô, que nunca parou para pensar se ama minha avó de verdade, ou se simplesmente não teria diferença se fosse qualquer outra que tivessem te arranjado! Por que nunca está do lado dela, afinal?!
O quê?!!
Uli assiste à discussão esperando uma deixa para sair dali o quanto antes. Andy tem uma personalidade forte, não é moldável como Lucius queria que fosse. O clima entre os dois nobres está pesado. O rei dispara:
– Mais uma palavra e será levado para a masmorra para aprender a obedecer a seu rei!!
– Quer saber? Quer trazer a condessinha para cá, traga. Só não espere que eu me case com ela. – e vira as costas.
– Não ouse me virar as costas!! – esbraveja possesso.
Andy volta provocando:
– Quer tanto casar alguém? Case o Uli!
– Eu? – diz encabulado o Conselheiro.
– É, você. Por que não casou até agora? Gostou dessa tal Rose? Fique com ela. Eu tenho dezessete anos, Uli tem quarenta, não é, Uli? Faça esse favor para mim. Sacie a verve casamenteira de meu avô...
O Rei o interrompe:
– Chega, Andy! Eu nunca precisei fazer isso com você, mas desta vez o aldeãozinho passou dos limites... Uli.
– Sim, Senhor? – o Conselheiro treme de medo.
– Chame o carrasco. – a frieza do rei surpreende a todos.
Uli pasma, hesita, olha-o mais uma vez sem parecer acreditar, mas o rei não muda sua postura: sim, foi essa a ordem. Apavorado, termina saindo para chamá-lo.
Andy encara o avô:
– Não pode estar falando sério.
– Você nunca me ouviu falar mais sério.
– Você só pode estar louco… – balança a cabeça, incrédulo.
– Não mais que você, por me desafiar. – sorri, prepotente – Amanhã terá mudado de ideia, tenho certeza. – e agora é ele quem lhe vira as costas.
Andy sente os punhos tremerem, dá um passo à frente e deixa o ódio falar:
– Acha que conseguirá convencer alguém com tortura? Convencer quem? Você mesmo? Então eu me lembro por que meu pai nunca te respeitou: você não merece respeito. Talvez por isso ele nunca tenha falado na vida sobre o próprio pai: de vergonha!
– Boa noite, meu neto.
– E talvez eu saiba por que quer tirar meu sangue: é pura inveja! Porque não tem sangue correndo pelas suas veias! Não tem!!!
Lucius se retira. Sobe as escadarias sem olhar para trás. Os olhos de Andy transbordam com um ódio nunca sentido antes em relação ao avô e ele fica trêmulo e ofegante ao ver sua figura covarde distanciar-se. Sente medo.
Por um instante tenta acreditar que não passava de um blefe para assustá-lo, talvez devesse apenas subir para o quarto e esfriar a cabeça, pedir desculpas e conversar com calma amanhã. Mas, para sua surpresa, o carrasco chega, com um capuz preto cobrindo-lhe a cabeça, rápida e agressivamente. Tenta agarrar Andy, mas ele o empurra dizendo:
– Eu sei aonde quer me levar! Só não concordo.
Ao constatar a veracidade da intenção, seu ódio aumenta a um nível que jamais alcançou, por ninguém em sua vida.
Sente vontade de reagir, sente uma força estranha se espalhar por seus músculos. É adrenalina. Andy antecipa o que o espera, ele que jamais sentiu dor. Não uma dor considerável, pelo menos. Jamais caiu dos cavalos ou de nenhuma das árvores que sempre amou escalar. Jamais apanhou de seus genitores e até quando seus irmãos bateram nele por qualquer motivo, não pesavam a mão. Ninguém nunca lhe quis mal, Andy era um bom menino, não era? Não foi o que sempre repetiram?
Por que isso?
Impotente e chocado, sempre com o truculento funcionário querendo agarrar seu cangote como se fosse algum animal fujão, Andy sobe as escadas que o levam até a torre fugindo desse toque, encolhido e tenso.
As mãos do carrasco são ásperas e geladas. Parece um caminho interminável. Não acredita que tenha feito por merecer isso, não admite a crueldade daquele que deveria ser seu tutor para com sua até hoje tão dócil pessoa.
Sua respiração está pesada e difícil, os dentes travados seguram os berros de revolta que precisava soltar para que seu coração voltasse ao ritmo, mas aquele imenso homem jamais o permitiria. Está ali para conservar a autoridade do rei, não importa que esse mesmo rei esteja completamente errado!
Uma porta velha de madeira logo à frente está fechada. Andy espera o carrasco abrir. Feito isso, leva um empurrão gratuito, apenas para ter um gostinho do que o esperava depois que essa porta novamente se fechasse. Na sala redonda, diversos objetos de tortura: caixa de pregos, esticador, uma mesa cheia de correntes para exercitar a criatividade do carrasco.
O homem o aconselha a tirar a camisa e o indica um pequeno banco e duas correntes que vem do teto, com uma algema em cada uma. Andy tira a camisa, sobe no banco, e o carrasco, bem mais alto, o que era raro, algema suas mãos. Feito isso, ele chuta o banco e Andy fica pendurado pelos pulsos que doem por estarem apertados.
Ele gira devagar, as correntes são pendentes e se mexem bastante. O carrasco vai até um armário procurar o objeto mais próprio para agredi-lo. Ele procura, falando:
– Olha, eu não sei o que você fez ou deixou de fazer. Só sei que o Seu Campbell falou para eu não te machucar muito.
– Admira-me a consideração que ele tem por mim. Me emociona. – ironiza, trêmulo.
Andy cerra os dentes de dor: suas mãos ardem. O frio da noite aumenta a sensibilidade de sua pele. Será uma noite longa.
O silêncio é doloroso, as correntes muito mais. O carrasco sai com um chicote médio, feito especialmente para surras. Ele chicoteia o chão. O barulho é seco. O carrasco fala:
– Vou fazer uma brincadeirinha com você.
– Que adorável... – sorri nervoso e sarcástico.
– Ouça: eu vou girar você e contar até três. No três eu te atinjo. E o que eu vou acertar, vai depender do que estiver virado para mim enquanto gira. Mas não se preocupe: vou deixar você ter filhos, viu?
– Hm, adorável e generoso...
Ele segura suas costas nuas e o empurra, o fazendo girar. As correntes vão se encolhendo e isso as faz espremerem ainda mais seus pulsos. Ele flexiona os braços, num apelo contra a dor. Não adianta. Vai abaixando-se devagar e com isso as correntes começam a desenrolar.
O carrasco conta até três e bate.
Andy grita por impulso. Acertou na lateral.
Ele faz de novo: acerta o pescoço e o tórax. Mais uma vez: o lombo. Novamente: os peitorais, em cheio.
E os gritos contidos pelos dentes travados de frio se estendem pela noite. A tortura dura, mais ou menos, duas horas, mas acaba, depois de outras “brincadeiras”.
Andy é jogado na masmorra, que fica na sala ao lado, exausto. Para não ser visto por outros prisioneiros vai direto para a solitária. Dorme lá, acorrentado, mas pelo menos no chão. Praticamente desmaia, dolorido dos pés à cabeça.


3 comentários:

Íris disse...

Que nervoso, vc fica fazendo mistério!!!

Vanda Maria Meireles Matiazi disse...

Andy acaba de descobrir como é difícil ser um quase adulto na corte. Um pouco tenso este começo do capítulo 7, veio realmente a calhar com este ano de 2014 que é também 7, segundo a Kaballah é o número perfeito. Vamos ver como se sai nosso lindo príncipe. ....
Adoro o número 7 pois sou também a sétima filha de minha família . Muitas emoções virão. Grata Má . Bjs.

Vanda Maria Meireles Matiazi disse...
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