domingo, 12 de janeiro de 2014

Capítulo 19 - "A Filha do Conde Harmand"

 

            Na suntuosa mansão de Conde Harmand, logo após as copeiras terminarem de retirar a mesa do café, uma carta chega. O próprio Christopher Albert Junas Richmore Harmand, senhor de cinquenta e alguns anos, espessa barba grisalha e estatura mediana, pega-a da bandeja de uma empregada.
A carta tem o selo Real. Ele abre e lê ansioso, com os óculos pendendo do nariz:

         “Sua Majestade, o Rei Lucius Terceiro, e seu neto e herdeiro, o príncipe Andy Mideline, convidam o Conde Christopher Albert Junas Richmore Harmand, sua estimada filha Rose Laetitia Junas Philip Richmore Harmand e prezada família para um almoço no Palácio de Pedra, no Primeiro dia da Lua Cheia de Pentáster.
Sua presença nos será honrosa.
Atenciosamente,
Uli Campbell – Primeiro Conselheiro Real e Oficial Chefe da Corte”.

        Harmand abre um grande sorriso. Trata de mandar um de seus funcionários, seu contador pessoal Lorence Dalagar, a quem tinha acabado de receber para discutir futuros investimentos, chamar sua filha.
Lorence não se importa por ser tratado como um empregado pessoal quando está ali, é bem pago para isso e se sente “da casa”. Sabe que Harmand trata absolutamente todos os seres humanos ao seu redor dessa maneira: sua família, inclusive. Ele sobe as escadas de quatro lances, bem escondida no fundo da casa, e vai procurar a caçula do Conde em seu quarto.
            Rose, não está nada preocupada com cartas de reis, está pouco se importando para isso. Ela brinca com sua gata Bianca, de pelos longos, brancos, com uma mancha preta sobre o olho direito, sentada sobre o tapete felpudo em frente à escrivaninha, arrastando um pequeno arranjo de plumas amarrado em um barbante.
Bianca bate a pata macia diversas vezes no seu brinquedo, esperando em vão algum resultado. O único que consegue é o sorriso doce da garota.
O homem bate na porta. Rose deixa o brinquedo no chão, delicadamente. Corre para abrir:
         – Meu amor! – sorri abertamente, num sussurro animado, olhando para fora da porta – Esqueceu que não pode vir aqui? Se o meu pai descobre nossas cabeças rolam, sabia?
            – Não foi por causa disso que eu vim. Não agora, claro. – sorri malicioso – Seu pai te chama.
Ela entorta a boca numa expressão entediada:
            – O que ele quer desta vez?
            – Acho que vocês receberam um convite do rei. Para um almoço, eu acho.
            Rose arregala os olhos:
            – O quê? O rei respondeu? Essa não! Mas que merda!
            – Olha a boca, menininha. – toca sua bela boca com a ponta do dedo.
 – Eles não podem separar a gente, Lorence! – agarra seu colarinho e puxa-o para perto dela, carente, sem nem mesmo deixá-lo falar.
Ele a afasta com cuidado, sorrindo:
           – Calma, Rose, se segure. Lembra-se das cabeças rolando? Ninguém vai separar a gente, entendeu? Nem mesmo o rei. Agora é melhor descer ou seu pai vai ficar nervoso com você, e eu... – dá um beijo na moça – não quero que ninguém… – dá outro – fique nervoso… – e outro – com a minha lindinha. Agora desce.
            – Está bem… – resmunga.
A menina desce as escadas olhando para ele, que permanece lá em cima, de um jeito charmoso.
Lorence é um belo rapaz, loiro, de vinte e quatro anos. Possui cabelos ondulados que chegam ao fim do pescoço, barba bem aparada e um ar aristocrático, apesar de não ser um nobre. Não leva Rose tão a sério quanto ela pensa, mas também não confessa a si mesmo o que realmente quer com esse relacionamento. Ela é bonita, esperta e gosta dele: o que ele pode perder com isso?
Rose chega até o pai, que não tem nem ideia do que aconteceu lá e nem do que anda acontecendo há mais de seis meses. Harmand percebe a presença da filha na sala e começa a contar:
– Sabe quem mandou esta carta que está agora na minha mão?
– Não, papai. Quem mandou a carta que está agora na sua mão? – brinca.
– Um oficial da corte do rei Lucius Terceiro! E sabe o que ela diz?
– É claro que não, papai. – responde entediada roubando um biscoito da bomboniere – Se eu não sabia nem quem tinha mandado, como é que eu vou saber o que está escrito?
Ele a ignora, pois está nos Céus da grandiloquência:
– Está dizendo que o rei e que o seu futuro noivo nos convidam para um almoço no palácio depois de amanhã. Ah, Rose! – aperta sua bochecha – Você me deixa tão orgulhoso!
Oh, puxa, deve ser a primeira vez na vida que ele diz isso a ela. Não esperava ocasião pior.
– E como é esse meu “futuro noivo”, meu pai? – pergunta aborrecida, esfregando a bochecha dolorida – Já que nem mesmo isso eu sei desse homem.
O Conde anda pela grande sala repleta de tapetes e com mais sofás que a própria loja que os expõe, com o punho alto, gesticulando muito:
– Pelo que andei me informando, ele tem dois metros de altura, cabelos castanhos e longos e lindos olhos verdes, que mais parecem esmeraldas valiosas! – fala como se seus olhos parecendo joias lhe aumentassem ainda mais o valor como marido, afinal, mulheres adoram isso, não? – Sabe esgrima, equitação, sabe sobre política... Acredite, minha filha, te arranjei o melhor pretendente que qualquer garota poderia sonhar!
– Qualquer uma… – repete desanimada, com um biquinho frustrado escapando timidamente – Mas não está nada definido ainda, está?
– E se Deus Pai gostar de nós, Rose, você não vai estragar tudo.
Christopher se retira da sala. Para no corredor uma empregada e lhe diz:
– Providencie tudo para que depois de amanhã minha filha esteja a mais linda de todas as aldéas, entendeu?
– Mas ela já é, meu Senhor. – responde a empregada olhando a menina simpaticamente.
– Mas terá que estar ainda mais para esse almoço.
– Sim, Senhor. – responde servil.
Rose ergue as sobrancelhas franzidas e entorta o biquinho para o lado enquanto vê seu pai partir. Resmunga baixinho:
– Merda…

***

–Não me diga que puderam fazer isso com o meu filhotinho. – suspira a velha Ada, apavorada com a frieza do rei.
            – Eu também não me conformo! – protesta Poler – Foi por isso que vim aqui, debaixo dos brincos-de-princesa. Queria ficar sozinho.
            – E nem isso conseguiu, pobrezinho.
            – Imagine! Estou achando ótimo estar aqui contigo. Tu transmites paz. O que é difícil de se encontrar por aqui.
            – Venha aqui. – convida a velha abrindo os braços – Está precisando de alguém, não está?
            Poler hesita, a olha um pouco de lado. Não é alguém acostumado a grandes contatos afetivos, Andy demorou anos para dobrá-lo.
Mas a anciã tem esse poder de desmontar as fortalezas e o Conselheiro se sente irresistivelmente atraído pela sua energia maternal. Vai se ajoelhando devagar e a velha o abraça com naturalidade.
Ele se protege nos braços delicados e carinhosos da senhora, sentindo seu perfume de incenso. Ada passa a mão tão seca nos cabelos encaracolados e macios de Poler. Era o que ela queria fazer desde que o viu. É um cabelo moreno, brilhante, cheio de cachinhos. Alguns fios brancos se misturam aqui e ali por entre as mechas, mas ainda eram poucos.
Poler chora de raiva. Não sabe explicar, mas não conseguiu controlar essa vontade. A velha senhora tinha algo a ver com isso. Ela não quer fazer ninguém sair como entrou. Quer que saiam mais felizes, ou pelo menos, aliviados. Poler decide não tentar mais esconder a tristeza, e sim relaxar nos braços acolhedores da sábia senhora. Aproveitar do carinho há tanto tempo esquecido por um homem adulto e sozinho como ele.

            Andy sente uma energia forte e acolhedora vinda dos pensamentos de sua mãe espiritual já que agora ela sabia da sua situação. Ela aproveitou a energia vinda da preocupação de Poler com ele e transformou em conforto para sua alma. Andy sorri e lhe agradece em pensamento.
Já comeu todo o seu pão, mas ainda sente fome. Não sabe nem que horas são, se é dia ou noite. A porta abre de repente:
            – Comida? – se anima.
            Não era comida, era o rei. Andy se enfurece com sua presença:
            – Desculpe-me a franqueza, mas no momento preferia um pedaço de pão podre a Vossa Majestade na minha frente!
            – Entendo. Mas eu não vim aqui consolá-lo. Vim apenas avisar que já fiz o que tentou me impedir: convidei Harmand e sua filha para um almoço depois de amanhã.
            – Oh, e por que não amanhã? – sorri irônico.
            – Está um lixo. – sua face contrai em desprezo – Amanhã daremos um jeito em você. E nesse almoço, Andy, eu não admito falhas.
            – Acha que me assusta falando assim? Se estou um lixo agora é por culpa sua! Graças a você estou cheio de feridas agora! Nada disso vai sair até amanhã, sabia? E se essa talzinha quiser reclamar de qualquer coisa, eu posso mostrar porque ela não é bem-vinda!
            O rancor do velho rei em relação ao neto parecia maior que do próprio em relação a ele – e ele não tinha sequer apanhado! – e isso é demonstrado em sua resposta descabida e assustadora:
            – Se você cometer um erro sequer, eu mando te matar, Andy!
            – Então está falando com um homem morto, Lucius! Agora saia daqui! Saia!!
O Rei balança a cabeça. Vira as costas e vai embora. Andy contrai o cenho e os lábios. Isso pelo menos significa que depois de amanhã sairá dali, não?
Em alguns minutos, porém, Andy é surpreendido pela chegada de dois soldados.
Eles vêm depressa, desprendem os braços do príncipe e o agarram fortemente. Levam-no escada a baixo, quase o arrastando pelos degraus, sem mal dar tempo dele acompanhar seus passos, com as pernas doloridas. Num determinado trecho, param de descer.
Andy acha que seria solto ali, mas não é o que acontece.
Outra passagem os leva para outros degraus que começam a subir com a mesma truculência com que tinham descido até então. Isso os levaria para outra parte da torre. Andy reconhece esse caminho de imediato: é para a maldita sala do carrasco!
Não estava sendo libertado! Estava voltando, voltando para a dor!
Não suporta a ideia e trava os pés no chão com firmeza, tentando parar os dois homens. Assim que os segura, tenta soltar os braços puxando com força.
– Me deixe ir! Eu não vou subir mais!
– São ordens do rei! – responde o soldado, lutando tanto para segurá-lo que o machuca.
Andy fica ainda mais nervoso, luta mais, sua camisa imunda rasga ruidosamente nas mãos que o agarravam. Está conseguindo.
Um soldado se irrita e saca a espada para ameaçá-lo. Na deixa dele, Andy solta um dos braços e usa o preso para jogar um soldado em cima do outro. O barulho das armaduras se chocando ressoa pela escadaria.
Braços soltos, Andy finalmente consegue respirar e vê que o soldado caído derrubou a espada. Abre bem os olhos e age rápido, roubando-a. Quer correr, mas não tem forças. Tem medo, mas está determinado a se salvar. Antes que o soldado de costas para ele consiga erguer-se, segura-o pelos cabelos levantando-o do chão.
– Fique longe. – avisa ao outro, já de pé.
A espada é colocada junto à garganta do refém, mas seu punho está trêmulo e o seu oponente percebe isso.
O soldado sorri, tem tanta certeza de sua fraqueza que o ataca mesmo assim. Andy, porém, reage usando seu refém como escudo e o rapaz fura o próprio companheiro.
O jovem alvejado arregala os olhos, mirando incrédulo seu assassino involuntário que solta a espada e ergue os braços, num impulso, deixando-a presa ao seu corpo enrijecido de dor.
– Oh! Oh, Deus Pai...
Assim que ele cai, agonizante, e o cheiro de sangue sobe tomando o ambiente, o desespero toma a face do soldado assassino. O que foi que ele fez?
Levanta os olhos para o prisioneiro trêmulo e Andy pode ver o ódio brotando neles devagar, assim como a face se transfigurando. E mais uma vez o medo ultrapassa a dor e a Deusa Mãe grita mais que o Deus das Almas, pedindo que sobreviva:
Antes que pudesse pensar, Andy passa a ponta da espada, num único e preciso movimento de esgrima, na garganta do soldado que cai sobre o companheiro, encharcando-o com seu sangue. O príncipe sentiu, pela primeira vez, a resistência de um corpo vivo sob o fio de sua lâmina.
Que sensação… horrível.
Andy treme. Senta exausto no chão, joga a espada para longe. Sua cabeça dói. Não voltará para as garras do carrasco. Não voltará.

2 comentários:

Vanda Maria Meireles Matiazi disse...

Má , realmente esta parte 3 mexeu com minhas emoções
ao ver o sofrimento de Andy.mas ao mesmo tempo vamos nos encontrando com a linda Rose e outros personagens para tirar um pouco a tensão. Será que vamos ter casamento? Ou será que Ian e a pequena bruxa vão fazer alguma coisa ? Este livro esta cada dia melhor. Até a próxima segunda. Bjs

Fernanda Nia Ferreira disse...

Tadinho do Andy... Você sabe que eu não gosto da Rose, mas colocar ela brincando com um gatinho só faz mais difícil o meu trabalho de odiá-la. Hhahahahahaha, droga!