segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Capítulo 20 - "Resgate"


– Ian, acorde!
            Poler abre os olhos e levanta do colo da velha mulher. Olha para ela confuso, como se se perguntasse o que fazia ali. Tinha adormecido?
Ela sorri:
            – Algo me diz que Andy está livre! Na segunda passagem da torre sul. Ele precisa de você!
            – Andy... está… livre?!
            Ele beija sua mão e se levanta do chão. Despede-se dela rápido e sai correndo pelos degraus. Arruma a gárgula e a passagem abre. Ao sair repara que está ficando escuro. Deve ter ficado horas por lá. Sai de trás da planta, encontra a estátua da Deusa e fecha a passagem. Corre para dentro do Palácio.
Lá ele diminui o passo e tenta passar despercebido. Não consegue.
            Willian Deris o avista e grita aliviado:
            – Poler! Graças aos deuses resolveu aparecer! Está ficando louco? Parece até que se esqueceu do Congresso!
            – Congresso?!
            – Congresso, sim! Estava te esperando, já estamos atrasadíssimos. Já está pronto?
            – Já, já estou. Só me falta um pequeno detalhe que eu preciso resolver antes...
            – Não vai resolver nada! Não temos mais tempo!
            – É urgente, Deris! Mais que tudo, eu garanto. Vai sem mim, depois eu vou seguir-te a cavalo, certo? Até. – Poler sai correndo por trás das escadas.
            – Espere! Poler! – o vê se afastando e reclama – Oras! Eu não acredito que te esperei tanto para você ir sozinho!
            Poler toma rumo até a torre Sul, cuja entrada ficava depois do salão de festas. Ele corre o salão inteiro. Acha isso interessante. Quando criança corria sempre, mas em quinze anos de serviço no palácio nunca tinha corrido assim. Chega à escadaria e a sobe rápido.
É escada demais para um homem que já passou da idade de ficar correndo. Ele põe a língua para fora e ri da sua limitação: “Eu te avisei, homem: tu não estás mais com tudo em cima.”.
            No meio de sua brincadeira, a longa escada acaba e há um espaço plano em sua frente. Depois, mais adiante, há uma parede que separa duas escadarias.
Na do lado direito, as tochas estão apagadas, e, nas sombras, Poler pensa estar vendo um vulto sentado nos degraus. Vê uma espada com sangue, jogada bem aos seus pés.
Poler pega uma tocha da parede e se agacha cuidadosamente para alcançá-la, sempre olhando para o suposto vulto. Teme, mas está disposto a enfrentar qualquer um para salvar seu protegido.
            Aproxima-se do lance esquerdo para ver de uma vez por todas quem está ali. Aponta rápido a tocha que revela:
            – Andy?! – duvida Poler.
            – Então quer dizer que estou… reconhecível, apesar de tudo?
            Poler coloca a tocha no chão, agacha e passa a mão no seu rosto. Sorri:
            – Sua mãe acertou! Realmente estavas livre!
            – Não foi assim tão fácil, Ian. Olhe. – Andy pega a tocha no chão e a aponta para a escadaria. Lá estão os dois soldados mortos, estirados no chão. Poler olha horrorizado, chega a torcer o nariz.
            – Por que fizeste isto, Andy? – pergunta como para o filho que quebrara uma vidraça.
            – Eu não tive escolha! Eles estavam me levando para apanhar! – justifica desesperado – Eu não queria apanhar de novo! Eu não aguentaria isso mais uma vez, Poler, não por essa razão, por favor, eu não mereço… – confessa o rapaz, ferido e exausto.
Ele abraça Poler e se permite chorar, colocar para fora essa agonia. Aperta forte o corpo de seu pai que o acolhe, espantado.
Imagina o que o levou a tomar medida tão desesperada. Está chocado. Faz um carinho paternal em seus cabelos e vai soltando-o aos poucos. Seus olhos estão cheios d’água, mas ele não chora:
            – Meu pequeno... O que eles fizeram contigo? Eu não acredito que eles tiveram a coragem de machucar-te! – puxa o ar, nervoso – Eu vou para a forca, Andy! Eu vou para a forca, mas eu não posso deixar que isso fique como está! Lucius me pagará caro, tu verás!
            – Não, não, Poler, esqueça isso. – balança a cabeça assustado – Eu posso levar uma surra daquelas todos os dias, mas não seria pior do que viver sem você aqui para me ajudar. Você é tudo que eu tenho. Você é meu melhor, meu único amigo. Você e... espere, Poler! – se indaga, confuso – Quando me viu, ouvi dizer algo como “sua mãe estava certa”, foi isso?
            – Exatamente, foi o que eu disse.
            – Não pode! Então você sempre soube dela?! – diz alegre – Ela te chamou e mandou vir aqui, não é? Foi Ada!
            – Foi ela sim, Andy. Mas eu não soube sempre dela. Na verdade, conheci Ada por acaso. A passagem estava aberta e eu não resisti a entrar.
            – Ian Poler! Foi pela Deusa!!
            – Deves velas a ela, viu?
            – Velas? – preocupa-se com seu esquecimento.
            – Foi a primeira coisa que ela me perguntou!
            – Ninguém mais sabe disso, não é? – Andy toca em seu ombro.
            – E por mim, nem ficarão sabendo!
            – Que maravilha! – sorri abertamente – As duas melhores pessoas do mundo já se conhecerem.
            Ian sorri pela sua alegria com a notícia. Andy muda o tom de voz:
            – Precisa me levar até ela, Poler. Ela pode me curar. Ninguém pode me ver nesse estado: eu serei o rei um dia! Isso é muito humilhante. É o que Lucius quer! Ele quer me desmoralizar!
            – Farei isso. Mas antes precisamos cuidar desses corpos.
            – Deixe-os aí. Eu… – Andy não tem coragem de olhar para aquilo que fez, comprime os lábios e puxa o ar, sentindo a culpa lhe doer – Vamos cuidar primeiro do meu corpo, depois teremos condições de cuidarmos dos mortos. Vamos.
            Ian levanta e puxa Andy.
Andy quase chega a cair novamente travado de dor, mas Poler segura-o a tempo. Ele não está em condições de descer, ou pelo menos é o que pensa seu pai. O Conselheiro então põe a mão na sua testa e joga sua cabeça para trás, um costume antigo para fazer doentes desmaiarem. Andy desmonta.
Poler o segura deitado em seus braços. Desce devagar as escadas, carregando o alto rapaz, um trabalho árduo. Ao chegar ao final da entrada da Torre Sul, Poler para e pensa num jeito de chegar até o Jardim Oeste sem ser visto por ninguém. Resolve ir até as cortinas do salão de festas.
            Seguindo junto à parede, ele alcança os pesados tecidos e deita o corpo ferido de Andy delicadamente no chão atrás deles, onde ficará escondido até ele arranjar um jeito de chamar a atenção de todos, de uma forma que possa escapar com o rapaz. Pensa, pensa, pensa melhor, desiste, pensa mais... Até cansa!
            O Conselheiro passa a mão na cabeça, preocupado. Sentado ao lado de Andy, atrás das cortinas, ele transpira intensamente. Encosta a cabeça na parede e fecha os olhos. Decide não abrir até encontrar a solução. E ela finalmente vem.
            Abre os olhos, esperançoso, mas preocupado: e se não desse certo? “Ficar pensando se vai ou não vai dar certo não ajudará em nada, faz de uma vez o que deves, Ian!”. Pensando assim, Poler se levanta e segue pela lateral, cautelosamente. Volta à entrada e sobe mais uma vez as escadas.
            Chegando até o lugar que encontrou Andy, Poler vê o carrasco com uma tocha na mão, olhando, confuso, os corpos dos soldados no chão.
Não era para encontrá-lo, mas azar dele!
Sem sequer parar de andar, Poler pega a espada do chão e aponta para o carrasco, seu peito nu, na altura de seu coração. O imenso homem se rende, quando se encontra entre a espada e a parede, com o olhar firme e nervoso de Poler nos seus olhos.
Ele pergunta espantado:
            – Foi você? Você matou os soldados?
            – Não matei ninguém... até agora! – ameaça empurrando a espada até tocar nele – mas isso dependerá de tua resposta.
            – Por favor, não me mate!! – implora o homenzarrão de preto, que, conhecedor dos pontos letais, sabe que qualquer descuido naquela situação pode levá-lo à morte.
            – Por que fizeste aquilo ao príncipe?!
            – Príncipe?
– Não te faças de inocente!
– Eu só estava obedecendo ordens, senhor! Eu nunca saio daqui! Não sabia quem era o rapaz! Agora tire essa espada de mim! Por favor... eu sou só um funcionário!
            Poler presta atenção no desespero do homem. Tem dois cadáveres aos seus pés e ele não duvida que será o próximo.
Arranca a espada do corpo do primeiro soldado a morrer. Com as duas armas nas mãos, ele ordena:
            – Pega-os!
            O carrasco pega os dois corpos e põe nos ombros.
            – Sobe.
            Os dois sobem as escadas até o posto do carrasco. Quando chegam ao quarto escuro pela noite, Poler volta a ordenar:
            – Vai até a janela. Ande!
            Ele vai até ela, a abre e olha lá para baixo, enquanto uma ventania gelada invade o ambiente, cortante. É um dos pontos mais altos do Reino. Os braços nus arrepiam de frio enquanto o sangue dos cadáveres escorre devagar sobre seus ombros, até que ouve:
            – Jogai os corpos. Um por um!
            O carrasco fica apreensivo pela sujeira que sabe que vai fazer, mas para quem já espancou pessoas até a morte, não era nada de mais jogar dois defuntos torre abaixo. E assim o faz. Vê-os chegarem até lá embaixo e se esborracharem. Olha para Poler esperando sua reação. Ele sorri:
            – Muito bem. Agora pule!
            – Não! Por favor!
            – Não discuta! Ou pulas, ou morres pelo sangue escapando infinitamente de tua jugular. O que preferes, carrasco? – junta as espada como se fossem uma imensa tesoura, ameaçador como apenas o ódio o permite se tornar.
            – Não, senhor, eu não quero morrer… Eu faço qualquer coisa!
            – Até admitir que foste o responsável por tudo isso? Que mataste os dois soldados?
            – Qualquer coisa!
            Poler vem a ele ameaçador. Coloca a espada junto de sua garganta, bem próximo da janela:
– É bom que o faças, pois logo estarão aqui e vão querer saber quem fez isso. E, se abrires essa grande boca e disseres que me viu aqui, eu acabo com tua vida, entendeste? E é melhor que não duvides! Posso não ter tanta força física quanto tu, mas tenho influência o suficiente para acabar com tuas próximas cinco gerações! Tua família vai mendigar nos arredores do reino, pois serão expulsos e não haverá outro reino que os aceite, pois vou manchar teu nome até que se torne sinônimo de lixo! Não é isso que queres, ou é? – coloca-o perigosamente contra a janela, enquanto o choro engasgado do carrasco confirma que aceitou as condições. – Se assumires, como me garantiste, te contrato um advogado. Não há trabalho forçado mais indigno que o que cumpres hoje. – bate com violência a espada em um punhado de instrumentos de tortura sobre a mesa, que se espalham ruidosamente sobre o chão – Te procuro na prisão.
Poler o encara sem tirá-lo do foco de suas lâminas até o último instante, mas logo sai de lá correndo, jogando as espadas no caminho, onde as encontrou. Se alguém fosse lá em cima o veria e ele poderia se complicar e muito. Urinado, o carrasco cai de joelhos.
            Poler faz o que queria: distrai a todos do palácio.
Corre escada abaixo, trêmulo de medo. “Aquele homem tinha dois do meu tamanho!” pensava, sem quase acreditar no que tinha acabado de fazer. Chega até o salão de festas e os últimos empregados se retiravam para saber o que estava acontecendo. Para disfarçar, Poler pergunta:
            – Afinal, o que aconteceu aqui?
            – Dois homens mortos, caídos da torre! – responde o jardineiro – Acham que são da Guarda Real! Não se sabe ao certo, mas há muito sangue no local!
            Assim que todos passam, ele pega velozmente Andy de trás das cortinas e corre com ele nos ombros. Está com taquicardia e quase caindo de cansaço, mas consegue levá-lo até a passagem. Abre-a e lembra que teria mais escadas para descer. “Eu devia jogá-lo escada abaixo e ir dormir!” pensa, farto de segurá-lo, mas de quem foi a ideia de desacordá-lo, afinal? Mas que grande sacada, Poler, genial! Descendo ele grita:
            – Ada, pela misericórdia divina, ajuda-me!
            Ela o esperava na pequena porta. O Conselheiro chega a ela e coloca Andy em sua frente. A senhora sorri:
            – Conseguiu! Eu mal posso acreditar! Andy, acorde! – assim que ela pede, os olhos do rapaz se abrem e Andy olha perdido para os dois.
Ainda está fraco, dolorido, mas se mexe. Poler diz:
            – Olha-o enquanto fecho a passagem. – e se retira, exausto.
            A velha senta junto a Andy e coloca sua cabeça em cima de suas pernas, passando a mão na sua testa. Poler entra na sala e desmonta no chão. Sua barriga sobe e desce com intensidade. A velha fala calmamente:
            – Não sei como posso agradecer pelo que fez ao meu filho. Sempre estarei te devendo esse favor, meu querido.
            – Não me deves nada, minha senhora. Amo este garoto tanto quanto a senhora e faria isso quantas vezes fosse preciso... mas não hoje. – suspira, exaurido.
            – Está tão cansado.
            – Já tenho quarenta. E eu não sei se conseguirei chegar aos mil.
            – Não merece me carregar por tanto tempo, Ian. – diz Andy, de olhos bem abertos e sérios.
Poler ouve sua voz, que parece perfeita para um estado como o seu. Senta-se e o observa já visivelmente recuperado:
            – Mas, como? Tu deverias estar muito pior do que eu!
            – Agora entende por que eu fazia tanta questão de ser curado por Ada, não é? – para surpreender ainda mais a Poler, enquanto falava, o inchaço do seu rosto diminuía mais e mais.
Poler olha para Ada e indaga:
            – É esse o teu dom? Tu curas?
            – Quase isso. – responde calmamente a mulher, enquanto acaricia a testa e os cabelos do jovem, que fecha os olhos sentindo o seu calor – O Escolhido é o mais sensível aos meus talentos.
            – Há ainda muita coisa que não sabe sobre essa mulher, meu amigo. – fala Andy – Essa mulher é demais. – sorri.
            Poler vai até mais perto deles sem se levantar e se encosta à coluna central da sala. Ele apoia a cabeça para trás e olha para o teto, relaxado. Este tem algumas gravuras de anjos, fadas e dragões, algumas palavras em linguagem cigana e chamuanda. Observa, preguiçoso, cada um, mas está cansado demais para prestar atenção neles.
            A velha começa a cantarolar uma canção ancestral. É gostosa de ouvir. Sua voz é linda quando canta. Poler nunca a ouvira cantando antes, e está impressionado: ela que mal conseguia falar, não a imaginava sendo capaz de reproduzir melodias tão límpidas. Andy ouve e relaxa. A dor passava com o balanço da calma, mas alegre, música. Ele sorri e lembra:
            – Faz tanto tempo… Sempre cantava essa música para mim. É a que eu mais gosto, sabia? Acho que só está cantando agora porque Poler está aqui. Assim eu vou ter que ficar com ciúme dele.
            A velha sorri, mas em nenhum momento para de cantar sua canção. Parece mágica. Andy sorri para Poler:
            – Conhece essa?
            Poler nega com a cabeça. Andy se aconchega mais ao colo da carinhosa mulher e começa a cantar mais baixinho, com ela. A velha, sorrindo, olha para Poler. Poler se encanta com seu olhar: a música e a fazem um manto de beleza envolvê-la, como se fosse capaz de enxergá-la em outra época. Deuses, como são diferentes o ambiente dessa sala e o ambiente de fora, do Congresso onde deveria estar...
            – Ai, meus deuses! Eu esqueci!! – salta do chão de repente.
            Os dois param de cantar aos poucos, enquanto Poler tentava se arrumar - e não conseguia muito.
            – Andy, empreste-me um casaco, por favor! Sujei o meu com teu sangue.
            – Por que a pressa?
            – Aquele maldito Congresso começou há… há dias!!
            – Poler… Se não estivesse salvando minha vida, ficaria decepcionado com você. – brinca o rapaz – Pegue que casaco quiser, boa sorte e feche a passagem.
            – Deus Pai! – sai preocupado escada acima.
            Andy olha para os olhos de Ada, que ainda sussurrava a canção.
            – Tenho que agradecê-lo de alguma forma, minha mãe. Que poderei fazer?
            Para de cantar e responde:
            – Terá a vida toda para retribuí-lo, meu amor. Agora descanse. Descanse que muito mundo haverá de cair em suas costas. Adormeça aqui esta noite e amanhã estará como novo. Ou melhor, ainda mais novo, não é?
            – Não vai dormir também? O que vai fazer?
            – Vou ficar rezando por seu amigo de fala bonita e de andar elegante.
            – Hum, Adinha, – Andy sorri, olha-a de lado – parece que vi um brilhinho no fundo desses olhos castanhos.
            – Andy, não seja bobo. – ri, um pouco sem graça.
            – Mas é verdade! Gostou dele, não foi? Não precisa me esconder, ele não vai saber de nada, eu juro!
Ada desconversa:
            – Ele é jovem demais para eu gostar dele.
            – Mas que homem da sua idade vai achar para gostar agora? Ora, Ada, gostar não faz mal nenhum, não importa de quem.
            – Não gosto de ninguém há mais de quinhentos anos, Andy. Não preciso mais disso. Não consigo evitar achá-lo interessante… mas só!

            Um pouco mais de conversa e Ada canta para Andy dormir. As velas estão pequenas, quase se apagando. Antes de cair no sono, Andy promete trazer mais da próxima vez.

2 comentários:

Pedro Roscoe disse...

Velha ada fofinha =D

Vanda Maria Meireles Matiazi disse...

Má , realmente surpreendente este final do capítulo sete,
Como não bastasse Andy estar tantos anos longe de sua mãe e irmãos o maldoso avô ainda faz tantas maldades.
Incrível a capacidade que você tem de surpreender-nos com a desenvoltura da história e as nuances dos tão pequenos detalhes dos personagens e dos ambientes onde eles vivem. Não vejo a hora de ver a carinha minúscula da querida Ada nas tuas ilustrações. O reino de Andy será majestoso especialmente com os aliados que ele tem Ian , Ada etc...