segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Capítulo 24 - "No Chafariz"


Como era de se esperar, Rose fica encantada pelo chafariz. Senta na borda de pedra do mesmo e descansa ali, olhando as esculturas de mármore verde que contornam o jato d’água: uma ninfa coberta de plantas aquáticas, enlaçada por um fauno, segurando uma serpente do mar, que também parece um dragão. Olhando bem, é sim um dragão, ou será que…
– Gosta do chafariz? – Andy lhe pergunta, em pé ao seu lado.
– Oh! Ah, sim. – responde depois do leve susto, pois não o havia visto chegando.
– Foi o que mais me chamou a atenção nos jardins na primeira vez que os vi.
– Não nasceu aqui?
– Ah, não. Não nasci nem em Elderwood. Sou do Reino de Mourões.
– É mesmo? Ouvi dizer que é repleto de aldeias por lá, todas muito pobres.
Isso prova que ela realmente estuda, pois é muito difícil alguém saber algo sobre seu reino.
– É verdade. Eu era um aldeão. Por dentro ainda sou, sabe? Quem sabe por isso tão… rebelde. – sorri.
– Como era aldeão? Não entendo. – ela fecha um pouco os olhos de uma maneira adorável quando não entende alguma coisa, como se a luz a ofuscasse.
– Quando tinha doze anos me trouxeram para cá porque pertenço à família Real. Sou sétimo filho do sétimo filho de Lucius. Cresci sem saber disso. É uma história bem complicada.
– Doze? E com quantos anos está, Alteza?
– Dezessete. E você?
– Quinze.
– Ainda? – assusta-se – E já querem te casar?
– Minha mãe se casou com treze. – dá de ombros.
– Que absurdo! Devia ser proibido!
– Também acho: por que não faz uma lei contra isso?
– Acho que farei mesmo. Se passar pelo Conselho… – se distrai, pensativo.
Rose observa-o, inclinando a cabeça:
– É tão estranho falar com você, tão diferente.
– Por quê? – senta-se ao seu lado, finalmente.
– Tem apenas dezessete, mas fala como se tivesse trinta, quarenta… é tão maduro.
– E isso é bom?
– Não sei. É que eu não fico muito à vontade. – ela baixa os olhos num sorriso tímido – Preferi te ver rindo aquela hora.
Andy fica sem jeito, sorri. Torce um de seus longos cachos com o dedo, baixando também seus olhos. Molha os lábios e fala:
– Não sou assim sempre, sabe? Embora não tenha amigos da minha idade hoje em dia, eu costumo ser mais leve. – franze as sobrancelhas e continua, com mais gravidade na voz – É que ando muito ocupado e meu avô anda me irritando com essa história de casamento.
– Meu pai também. – suspira.
– Sabe, ele nunca deu a mínima para o que eu fazia, ou como eu estava. Estava tocando minha vida sozinho, até o reino! Será que ele não nota há quanto tempo ele não trabalha? Que as coisas estão vindo todas para minhas mãos? De uma hora para outra ele diz “Andy, você vai casar”. Determina isso. Absurdo! Tenho tanto para fazer antes disso, tanto o que planejar. Construir uma família é uma responsabilidade imensa, eu quero estar pronto para esse dia. Mas de repente ele se torna rude, tenta me obrigar.
Ela ouve atenta seu desabafo, até olha em seus olhos com interesse e fala logo depois:
– Entendo o que quer dizer: eu, por exemplo, só queria me dedicar ao estudo agora, fazer até uma faculdade.
– Faculdade? Ambiciosa. – sorri admirado – Pouquíssimas mulheres conseguem.
– É porque casam! – arregala seus olhos já tão grandes – Não é que não tenham capacidade, entende? É que os maridos não querem que elas estudem, que sejam independentes! Quem vai terminar de pagar estudos pelos quais não se interessa? Todas as moças de família têm que se casar para agradarem seus pais e até para não serem deserdadas. As que não são de família simplesmente não têm de onde tirar recursos para fazer a faculdade! Se você fizesse uma Universidade pública…
– Eu faço! Claro! Sempre quis fazer! – empolga-se – O que pretende cursar?
– Direito. Quero ser juíza. – sorri.
– Bárbaro. Eu quero que você seja juíza! Ou melhor, seja a responsável pelo judiciário no reino, o que acha?
– Seria ótimo, maravilhoso! – seu sorriso se amplia, mas logo sua expressão se torna desconfiada e contida – Você não está falando por falar, está?
Ele não sabe bem por que, de onde veio isso e se tinha mesmo tanta convicção das coisas quanto fez parecer, mas olha bem dentro de seus olhos e diz como diria um rei:
– Rose, um dia verá que eu não falo nada por falar.
A resposta não poderia ser melhor: Rose deixa surgir em seu rosto um lindo e confiante sorriso.
Andy olha-a fascinado: uma garota tão linda, tão jovem, tão doce… vibrando personalidade! É tudo que podia pedir à Deusa! Quando sorri agradecida, esse sorriso é tão amável que Andy sente algo novo ao vê-la assim. Tem vontade de aproximar-se, mas não o faz: ainda é cedo. Seu avô queria provar ter razão pela idade, cismou que sabe o melhor para o neto e Andy não queria jamais dar a razão ao avô! Mas olhe para ela: delicada como uma boneca, de pele tão macia e olhos tão brilhantes.
Rose também se perdia nos olhos do príncipe, verdes e negros, dourados e castanhos, tudo ao mesmo tempo. O brilho do sol na mata fechada. Pergunta:
– De quem herdou seus olhos verdes, Alteza?
– Minha mãe tem olhos verdes – explica – mas são muito claros, não lembram o tom dos meus. A maior parte da minha família tem os olhos castanhos como os seus.
– Comuns. – sorri.
– Não, nem tão comuns. São tantos tons de castanho, sempre lembram coisas boas, não lembram? Terra, madeira, café…
– Chocolate… – sorri a menina.
– Mel, caramelo… – abre o sorriso – Ter olhos castanhos tem suas qualidades, por exemplo: por acharem tão “comuns”, passam a prestar atenção nas outras belezas do rosto, na pele, nos lábios… – Rose fica sem jeito, mas Andy continua – No meu caso, aposto que só olhou meus olhos e é só deles que vai lembrar ao voltar para casa.
– Não é verdade. – conserta-o – Vou me lembrar de sua sagacidade, sua simpatia, sua altura… e seus pés descalços!
Andy sorri. Rose sorri também. De repente um frio na espinha, uma sensação de medo, de insegurança e quase de dor invade a menina. Rose puxa fundo o ar. Levanta-se séria do chafariz avisando:
– Preciso ir.
– Mas agora que estávamos nos conhecendo? – levanta-se também.
– Teremos outras oportunidades. Infelizmente, muitas outras.
– Entendo.
– Preciso estudar, enquanto ainda estudo.
– Rose. – Andy toca em seu ombro fazendo-a voltar-se para ele e ouvi-lo – Mesmo se chegarmos a nos casar, se meus e seus apelos não funcionarem, você vai continuar estudando: isso é uma promessa.
– Verdade? – sorri.
– Verdade: pode escrever isso. Uma futura juíza não pode esperar.
– Obrigada! – Rose dá-lhe um forte e rápido abraço de agradecimento, sendo que com sua altura, alcançasse somente o tórax do rapaz.
Ela sai rápido do jardim, deixando para trás seu futuro noivo encantado. Ele sente o abraço da garota ainda apertar-lhe no peito e um perfume novo no ar.
 Por que dez minutos de conversa num jardim mudariam tanto seu conceito sobre o casamento que viria? Antes do almoço podia jogar-se da janela da torre para não casar, chegou a apanhar uma noite inteira do carrasco para que isso não acontecesse, e olha só o que ela fez com ele: deixou-o de pé ao lado do chafariz, querendo que ela mudasse de ideia, olhasse para ele e voltasse correndo.
Acorda-se se sentindo ridículo. Volta a sentar na borda do chafariz. Lembra-se de quando chegou ao palácio e descansou ali pela primeira vez: cinco anos se passaram, agora é um homem e acaba de conhecer a primeira mulher da sua vida. Não era uma irmã, uma mãe ou uma avó: era uma mulher. Uma menina ainda, mas já era fértil, pronta para dar-lhe filhos, dar-lhe… prazer. Como nunca havia prestado atenção numa coisa dessas antes?
Sua mulher é aquela, não há nem por que procurar outra. Convence-se disso e no meio de seus pensamentos, chega a um último problema: como convencê-la também?

***

Quando Rose chega à mansão, vê que Lorence está por lá, sozinho no escritório do térreo. Sabia que ela não estaria em casa essa tarde, muito menos seu patrão, então por que veio? No fundo ela bem que sabe.
Rose foge das perguntas efusivas da irmã e das empregadas, reclama que só quer tomar um banho e desmontar o figurino primeiro – e é lógico que a intenção é arranjar desculpar sucessivas para fugir ao máximo do assunto. Detesta esses interrogatórios. Mas não vai escapar: vê Lorence olhá-la de longe.
Sorri, faz-se de difícil, deixa no ar um pequeno suspense. Ele, já tomado por ciúme, vai até ela quando, propositalmente, escapa para o jardim mais reservado da imensa mansão e pergunta, como se nem realmente quisesse saber:
– Como foi?
Dá de ombros, como se eventos como esse acontecessem todos os dias:
– Foi bom. A comida estava boa, o palácio é de encher os olhos.
– E o príncipe?
– O príncipe?
– É, o príncipe! Como ele é? – pergunta impaciente.
– Bem… ele também enche os olhos.
– Sério? – pergunta, desanimado.
– Sério. – ela olha em seus olhos sorrindo, passa a mão em seu rosto – Mas não tenha medo, meu amor. Eu te amo e sempre vou te amar. Vou fazer de tudo para que não se cumpra o casamento.
– Por que, Rose? Nunca nos deixarão casar mesmo.
– Eu posso fugir com você, o que acha?
– O que eu acho? – espanta-se – Acho loucura, inconsequência!
– Pensei que você me amasse, Lorence. – decepciona-se Rose.
– E eu pensei que fosse mais esperta! Nunca vai ter outra oportunidade como essa!
– Lorence!
– Ouça, minha querida, – puxa-a à parte – não desperdicemos essa chance. Se se casar com o almofadinha a vida de nós dois vai melhorar! Você será a mulher mais invejada do reino, a mais rica, a mais… tudo, Rose! E você me leva junto para o reino: posso trabalhar com o rei! Ganharei uma fortuna, poderei até comprar um título de nobreza, imagine?
– E nós? – suspira tristemente a donzela.
– Nós? – sorri Lorence – Essa é a parte mais simples! Continuaremos a nos encontrar às escondidas como fazemos hoje em dia. Lucius III morre, o que logo acontecerá e você será rainha. Então seu rei morre um dia desses e você casa comigo, que já serei nobre.
– Vai matar Andy?! – assusta-se.
– Não. Eu, não. – esclarece, chocado por ela ter pensado isso – O tempo vai matá-lo. Como qualquer monarca, sempre há quem queira matar.
A menina baixa os olhos:
– O que você quer dizer com isso tudo é que não vai fugir comigo. – suspira.
– O que eu quis dizer com isso tudo é que você é muito jovem para ter noção da oportunidade que ambos estaríamos perdendo se eu fugisse com você.
Rose olha triste para o chão, pensa um pouco, depois sorri e olha com malícia para Lorence. Fala-lhe com voz de menina:
– Então seremos amantes?
– Os mais safados da História… – sorri Lorence.
Os dois se beijam: o casamento dela, afinal, seria só mais uma etapa no relacionamento dos dois.

***

Dado um tempo depois da partida dos convidados o castelo volta à organização tradicional e Poler pode finalmente ir indagar o protegido sobre tudo. Para sua surpresa, em plena luz do dia, Andy estava em seu quarto, lugar que quase não transita a não ser para dormir. Ele está na sacada, olhando o entardecer chegando pouco a pouco. Ian tenta não o pegar de surpresa nem incomodar seus pensamentos. Coloca-se ao lado do príncipe e olha com ele o gigantesco horizonte. Espera algum consentimento, algum sinal de que podem falar sobre aquilo que Poler tem certeza que Andy já sabe o que é.
O sinal vem claro: Andy suspira. O suspiro é um pouco mais longo e derretido do que o de cansaço. Ian sorri:
– Já vejo que podem negociar o casório.
Sem nem olhá-lo, calma e prazerosamente, Andy completa-o:
– … e começar os projetos da nossa primeira Universidade pública.
– “E”? Mas o que tem uma coisa a ver com a outra?
– Estava pensando nas duas.
– Quem?
– Em Rose e na Universidade.
Poler sorri satisfeito. Ri do rapaz:
– Nem quando decides noivar te esqueces do trabalho?
– Não. – seus olhos não desviam em nenhum momento do horizonte – Não é trabalho, Ian. É porque Rose me pediu.
Poler está espantado com o comportamento de Andy, ao mesmo tempo, feliz. Passa a mão em sua cabeça e sai devagar e sorridente da sacada. Andy chama-o, virando-se para ele:
– Ian!
– O que foi?
– Me faça um favor. – pede preocupado – Não conte para meu avô que estou feliz, está bem?
Poler olha-o sorrindo, pensando: “Como pode ser tão teimoso e orgulhoso esse garoto?”. Faz-lhe um sinal de afirmação. Andy sorri e volta a se distrair com o horizonte, e Ian o deixa a sós com o pôr-do-sol.

Um comentário:

Vanda Maria Meireles Matiazi disse...

Má confesso que fiquei muiiiito surpresa com a situação . Você com certeza sabe surpreender teus ávidos leitores.
Andy não merecia este fiasco de casamento , e ainda sofre sem a sua família ! Fiquei muito emocionada imaginando esta cena do casamento, estou ansiosa pela parte dois. Andy e Rose tirar o sono do reino e os meus também.