terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Capítulo 13 - "Distância"

 

A rainha esperava Lucius III na Suíte Real. Está de pé, olhando nervosamente pelos vidros da sacada, mesmo que lá fora pouco pudesse ser enxergado. Fracos lampiões iluminavam o jardim interno dando à água da fonte o aspecto do reluzir de diamantes. A noite é profunda.
O que faz acordada? – pergunta o rei, sentando na poltrona de veludo e tirando as botas.
Eu não aguento mais. – solta um suspiro curto, a voz trêmula de raiva – Você perdeu todo o senso de ridículo trazendo aquela criatura para cá, chamando-o de “herdeiro”.
Ele é jovem, logo se adapta, está até indo muito bem…
Ele não usa as malditas botas! – seu corpo magro se enrijece.
Lucius olha a esposa com severidade, parando os movimentos:
Ele não vai ser um bom rei porque não calça as botas... – conclui, num tom preocupado, fazendo a esposa olhar para ele quase aliviada por ter sido tão rapidamente compreendida, quando o rei explode numa gargalhada zombeteira – Ah, mulher! Por que me amola assim?
Eu não me refiro às botas! Não somente! – retruca pálida – Você sabe o que me incomoda! Você sabe tudo que eu sinto, e mesmo assim me ignora. Minha opinião é a que menos vale no reino inteiro!
Ela se aproxima, antes que ele se levante e, com o dedo em riste, fala em tom agudo e ameaçador:
Eu conto os dias para que você enxergue o erro que cometeu! Eu conto os dias para sua decepção te arrebatar! Aquele bicho devia ter ficado onde estava, não importa o que digam seus Magos! Eu sei, Lucius! E um dia você há de saber também...
A rainha sai bufando, deitando na cama com movimentos bruscos que mal combinavam com sua etiqueta e delicadeza habitual. Lucius fica sério, sentado, pensativo:
Emanuelle. – chama, frio – Isso foi uma ameaça?
Foi um aviso.
Lucius levanta, vai até o lampião que ilumina timidamente o canto do quarto e aumenta a potência de sua chama ao máximo. Leva-o para perto da esposa já deitada e se aproxima, até mais do que deveria, causando um calor desagradável em seu rosto envelhecido. Seu tom é austero:
Pois a próxima vez que esticar esse seu dedo para mim, ele será quebrado. Isso foi um aviso.
Vai até o biombo se trocar. A rainha comprime os lábios, em silêncio. Seu coração bate descompassado de ódio.

***
“Minha querida mãe,

         Essa noite completou um ano desde que parti do nosso lar. Não sei se essa carta vai chegar, porque nunca vi carta nenhuma chegar a Ecklacia, mas me garantiram que um mensageiro poderia cuidar dela, só para mim. Consegue acreditar? Um homem atravessar três reinos só porque eu quis enviar uma carta? Esse tipo de coisa ainda não entra muito bem na minha cabeça.
         Para valer um pouco mais o esforço dele, enviei vários livros que só existem aqui. O tamanho da biblioteca do Palácio é assustador, mamãe! Acho que poderia ler durante todas as horas do meu dia por décadas e ainda não leria tudo! O que escolhi para a senhora é sobre a família do papai. Acho que gostaria de saber mais sobre eles. Sempre falo ‘eles’, esqueço que falo de ‘nós’. Isso é estranho, não é?
         Para os outros estou enviando histórias de cavalaria. São tantas e com tantos detalhes, sei que ficarão impressionados com as narrativas! Para Evelyn envio um livro sobre ervas medicinais e outro sobre fadas. Porque... bem, sei que ela gosta disso. Entregue a eles, mamãe, e diga que eu morro de saudade.
Na verdade, muitas noites ela chega a doer no peito tão forte que eu tenho medo de morrer como o papai. Mas não falei isso para assustar. Só para enfatizar. Amo vocês mais que tudo, mas minha saúde está ótima, mamãe, não se assuste. Eu não devia ter falado isso, desculpe. É que eu estou escrevendo sem fazer rascunho, espero que entenda minha letra. Poler falou que minha letra é a mais feia que ele já viu. Amigos falam essas coisas mesmo, não ligue. Gosto muito dele. Mas não gostei de ele ter me feito fazer aulas de caligrafia...
         Ainda não descobri o que fez papai fugir daqui. O único motivo, para mim, poderia ser saudade de Ecklacia, mas o pai, bem, nem devia saber que Ecklacia existia, como ninguém aqui parece saber.
Meu avô é um homem meio explosivo, mas não me parece uma má pessoa. Não a ponto de fazer alguém abandonar um castelo assim e... Nossa... Se eu te descrever como é tudo aqui, capaz de nem acreditar. Caberia com folga todos vocês, porém, quando pedi para trazê-los me fizeram desistir da ideia bem rápido. Parece que até eu já estou sobrando por aqui às vezes. Mas me tratam bem, mamãe, não se preocupe. Bem demais até.
O único que me trata como uma pessoa normal é o meu Conselheiro, Ian Poler, aquele que veio me buscar aí! Ele é tão legal, mamãe. Meu melhor amigo. Meu... único amigo. Não tem crianças aqui. Quilômetros de pedras, tapetes, obras de arte... e nenhuma única criança. Sinto falta.
Meus tios não são muito presentes na vida de meus avós. Não gostam muito de visitá-los. Acho isso esquisito. As pessoas são mais frias aqui no sul.
Estou aprendendo tantas coisas novas, mamãe! Queria que viessem me visitar logo ou que logo eu pudesse voltar. É estranho. Dentro de mim fico contando os dias aqui, como se em algum momento eu fosse ser liberado para voltar para casa, viver minha vida de volta. Saber que aqui é que está meu futuro me deixa agoniado. Eu não pertenço a esse mundo e ainda não me sinto em casa.
Sinto falta de me banhar no rio, de ouvir suas vozes e sentir o cheiro de cabelos queimados de sol. De levar broncas da Lenora e de cuidar de Heidi e Joshua. Sinto falta de seu abraço macio. Sinto falta de tudo, todas as pequenas coisas que me fazem sentir-me grande, útil e forte, porque, sinceramente, viver num lugar tão grande me faz me sentir muito pequeno.
Mas Poler diz que eu vou crescer, mamãe, e que o mundo será pouco para mim. Papai adoraria ter conhecido Ian Poler. Eles têm quase a mesma idade e talvez pudessem até ter sido amigos. Mas o destino o fez ter que encontrá-la numa noite de tempestade num lugar muito longe daqui, no qual eu penso todos os dias.
Amo muito vocês todos, mais que palácios e coroas. Não se esqueçam de quem jamais se esquecerá de vocês.

Com carinho,

Andy”


Um comentário:

Vanda Maria Meireles Matiazi disse...

A autora agora começa a nos mostrar um mundo que poucos conhecem. Andy já conhece muito bem este mundo mágico , que estamos prestes a adentrar.