quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Capítulo 4 - "Unidos Por Eletricidade"



Ecklacianos não costumam descansar nos finais de semana. Animais correm atrás de seu alimento todos os dias de suas vidas e ao mesmo tempo não trabalham por um instante sequer além de suas necessidades. Aquelas pessoas fazem da mesma maneira.
A estação chuvosa se aproxima. Parte da lavoura já está frondosa, atraindo insetos, perfumada, aguardando apenas terminar de madurar. Os pés mais jovens, porém, estão miúdos, sendo afogados pelo mato, necessitando de cuidados, por isso naquele dia o trabalho seria tirar o mato em volta dos brotos jovens do trigo.

Jason tinha acordado com uma estranha falta de ar, o peito um pouco comprimido, uma sensação de cansaço cobrindo seu corpo. Não era para estar assim, não antes do trabalho. As olheiras estavam fundas, como se naquela noite tivesse envelhecido alguns anos.
Tantos afazeres reservados para o dia, porém, não permitem que seus familiares o socorram e ele nem pede por isso. Guarda seu mal estar para si, dentro de seu peito dolorido. Vai ajudar a esposa a vestir a pequena Heidi para a escola. Ela está com quatro anos e já consegue acompanhar a turma. Estão tão orgulhosos de sua garotinha... Cedes percebe que seu vestidinho verde feito de um tecido grosso que lembra o linho, usado na maior parte das vestimentas da aldeia, já está ficando apertado para ela: precisa costurar outro o quanto antes, ou quem sabe ver se algum vestido antigo de Paulinne e Samara já pode lhe servir.
Joshua é ajudado a se vestir por Lenora, Evelyn amarra um laço azul no cabelo de Paulinne. Enquanto isso, os garotos mais velhos estão lá fora limpando as tesouras, foices e enxadas que serão usadas hoje, tendo a companhia dos cães que, como todos os animais de Ecklacia, se dividem entre as casas, dormindo uma noite aqui, outra ali, livremente.
Andy acaricia o focinho de um deles, de pelos espetados e bagunçados, como os seus cabelos: o branquinho Patafina, que chega a respirar de boca aberta de satisfação.
O menino está animado, acabou de ser “promovido” de estudante para trabalhador braçal. Com oito anos já é considerado capaz e responsável, e já leu tudo que precisava para entender o mundo à sua volta. Agora, o que quisesse saber a mais seria por sua conta. Era sua primeira semana indo para o campo, convivendo com as crianças mais velhas e os adultos. Respira determinado, ansioso por mais um dia.

Já Evelyn, que agora era uma moça e iria finalmente deixar de espalhar sementes e pegar o trabalho mais pesado, comunicou sua vontade para os pais: não quer ser roceira. Apesar da surpresa, foi compreendida.
Todos os trabalhos são úteis e, enquanto ela não aprende o suficiente do novo ofício de cuidadora que escolheu, que abrange a arte das ervas medicinais e das suturas, vai ajudar as mães que queiram ir para a lavoura, cuidando dos seus bebês. Veste-se para ir até a casa de Dona Salme Moya, que tinha tido gêmeos há menos de cinco meses, e de lá esperaria os outros bebês serem levados para sua tutela. Ao contrário de Lenora, Evelyn não tem o instinto materno à flor da pele, mas sabe que, se quiser cuidar de adultos, deve saber cuidar dos pequenos primeiro.
Sempre há na aldeia alguma jovem assistente e até mesmo os filhos de Cedes já ficaram sob o cuidado de suas vizinhas adolescentes. Servia de treino para aquelas que queriam se casar em breve. Não eram os planos de Evelyn, porém. Ela só queria se livrar da enxada por enquanto. Despede-se dos pais e vai refazendo sua trança no caminho, ajeitando todos os fios, cantarolando internamente.

Lenora coloca o avental, leva os irmãozinhos para a escola, todos de mãos dadas, como ela gostava, despedindo-se dos pais e dos irmãos mais velhos num aceno simpático. Os encontraria em breve, indo também cuidar da plantação. Nunca tinha se perguntado se realmente gosta dessa função ou se gostaria de fazer outra coisa, como decidiu sua irmã. Lenora não é de pensar demais. Segue o fluxo como um animalzinho dentro de seu bando. Jamais se questionou se as coisas poderiam ser diferentes do que são.
A manhã passa serena, o clima está ameno, apenas um pouco úmido, dando direito a um cochilo depois do almoço debaixo das frondosas árvores que prometem florescer antes que o trigal. Passado o sol mais forte, o trabalho recomeça devagar.
Barbara Caol tinha ido levar almoço preparado pela mãe viúva para alimentar os vizinhos. Felix repara que ela está usando seu lenço. Tinha amarrado os cabelos com ele de um jeito formoso e delicado. Ao contrário do que ele esperava, a garota não vai embora quando o almoço termina. Agacha-se junto das outras jovens, arrancando plantas silvestres pela raiz, com jeito, sem deixar de lançar olhares para o jovem Mideline. Felix sorri derretido. Aproveita as flores que é obrigado a arrancar e começa, de maneira discreta, a preparar um singelo buquê.

Francis, Lenora, Dennis e agora Andy, estavam sentados no chão ali perto, equipados de pequenas pás, cavocando e soltando da terra as últimas raízes deixadas para trás pelos adultos, preocupados em se livrar da parte mais pesada e evidente do matagal. Era um trabalho tranquilo, divertido, no qual os irmãos Mideline aproveitavam para conversar com a vizinhança. Estavam com eles as gêmeas de Sebes Moya, Marjorie e Dailere, os primos Jenniz, Martin, Timoth e Gwenie, além de Luzia Abhann e Desmond Caol.
– A gente podia levar o mato para as cabras comerem… – comenta Luzia, loira, tranças com pouco volume, sempre quase soltas de tão lisos que são seus cabelos.
– Ficam tão longe! – resmunga Martin Jenniz, um ruivo pontilhado de sardas e com os joelhos das calças permanentemente exigindo remendos.
– Não seja preguiçoso, Martin. – ela sorri torto, num tom debochado.
– Eu levo com você, Luzia. – fala Francis, levantando os olhos bem abertos, naquele medo de ser mal interpretado, mas ao mesmo tempo torcendo por isso.
Seus irmãos notam, se entreolham e seguram o riso. Se Luzia notou, não se importou, porque continua cavando bem despreocupada:
– A gente precisava do carrinho de mão. Podia ser antes de começar a escurec-... – abre de repente os grandes olhos azuis, espantada, olhando fixamente um ponto atrás dos amigos – O que está acontecendo? – pergunta tão baixo que os outros têm dificuldade de ouvir, mas não de entender que algo muito errado havia ali.
O som de passos apressados amassando as plantas e de respiração ofegante é percebido antes que eles pudesse virar as cabeças e ver a imagem de todos os trabalhadores vindo correndo em debandada em sua direção:
– Vespas! Vespas! – gritam os adultos, fazendo as crianças levantarem e correrem também, enquanto o zumbido começa a se sobressair junto ao trigal.
Alguns carregavam crianças que gemiam de dor, deixando os irmãos muito assustados, correndo na maior velocidade que podiam contra o vento úmido.


Afastados alguns quilômetros da plantação, ofegantes e cobertos de suor, os mais jovens finalmente são informados por Andrew, gesticulando:
– Jesse acertou a foice num mato, não viu que tinha um vespeiro nele! Quando caiu no chão… – dá um suspiro soprado, o coração ainda disparado – deu nisso!
Vários tinham recebido as picadas doloridas, queimando suas peles como brasa, enrijecendo seus músculos. Os gemidos se espalhavam ao redor, misturados ao som dos aldeões pegando fôlego.
Mas havia uma dor ali, entre todas, que não tinha sido causada por nenhuma vespa. A dor que tomava o peito de Jason Mideline, paralisando-o. Cedes já tinha ido até os filhos, visto se todos estavam bem e estava levando a notícia a Jason, mas ele faz questão de ir olhar para cada um deles pessoalmente:
– Quem estiver ferido tem que voltar para a ald-... – seu rosto se comprime de dor, fazendo todos os filhos o olharem preocupados, mas ele balança a cabeça e continua – ... voltar para a aldeia. Algum de vocês foi picado?
– Não, papai, o senhor foi? – pergunta Lenora, aflita, o que mais explicaria a dor dele?
– Não, filha. Papai está inteiro. – sorri um pouco sofrido – Vão para casa. Ou não, o dia está livre. Só não se aproximem dessa área, por favor. Amanhã as vespas vão estar mais calmas. Vou acompanhar os feridos, dar um apoio para Gwen, o filho dela recebeu mais de dez picadas. – o que era de fato algo gravíssimo.
Deixa os filhos para trás, pensativos.
– O que o papai tem, mamãe? – pergunta Dennis.
– Não sei, filho, acho que o susto foi muito grande.
Felix também estava olhando o pai com a expressão levemente comprimida, até que avista Barbara acudindo uma garotinha ferroada no braço. Ela demora, mas nota que estava sendo observada e, bem, a ideia de levar os feridos para o socorro na aldeia começa a ficar meio de lado.
Os pais se ocupariam, mas os jovens ganhariam a tarde livre, não era isso? Barbara desliza o lenço que ganhou de Felix pelos dedos, isso diz muito para ele. Precisa vencer a timidez mais uma vez, já era hora. Deixa os irmãos, disfarça, vai se aproximar dela dando a volta pela pequena multidão, despistando. Chega pelo outro lado:
– Barbara, – fala bem suave, causando um susto agradável na garota, que o tinha perdido de vista – você… tem algum compromisso essa tarde?
– Não, Felix, eu… – sorri com os lábios levemente comprimidos, como se segurasse um riso – Eu estou livre. Você também?
– Sim. Eu também. – um silêncio recheado de sorrisos se estende por alguns instantes – Um passeio?
– Um passeio, claro. – ri, graciosa.
Então escapam, ilesos, flutuando pelo campo disfarçando um do outro sua euforia. Das flores que Felix carregava, só sobrou uma: as outras caíram durante a fuga do enxame. Mas basta para Barbara sorrir abertamente e colocá-la no cabelo.

Cedes vai acompanhar o marido, dar apoio aos vizinhos. Lenora corre até Evelyn para dar a notícia. É atendida pela irmã um pouco mais descabelada do que quando chegou ali, depois de bater duas vezes na porta:
– Evelyn, você não acredita o que acabou de acontecer! – e fala tudo, detalhadamente, como um boletim de notícias humano.
Evelyn arregala os olhos, faiscante:
– Lenora! Eu preciso ver isso! Preciso ver como se cura as ferroadas, que ervas usar, que compressas! – chega a saltitar de ansiedade – Por favor, Lenny, fica com os bebês um pouco, eu juro que não demoro.
A garota estica o pescoço por cima do ombro da irmã, olha para aqueles bebês tão doces e pequeninos, adormecidos na sala depois da refeição que Evelyn lhes dera penosamente e seu coração amolece.
– An… bem… não demore então. – e já entra, com seu instinto maternal inflado, até pousando a mão sobre o peito. Um paraíso de tranquilidade e bochechas rosadas e macias a esperava depois de toda confusão que presenciou agora.
Evelyn vai satisfeita até a casa de Gwen Moya, onde a maior parte dos feridos seria atendida. Nunca viu tanta comoção, nunca ouviu tantos gemidos e tantas lágrimas de dor e preocupação. A cuidadora mais velha, Tarsila Jenniz, tia de sua mãe, pedia a colaboração de todos e não demorou para que Evelyn também estivesse indo buscar folhas e bebidas alcoólicas para as compressas. Percebe-se muito mais empolgada do que jamais esteve quando trabalhava no campo, procurando, identificando e colhendo as folhas certas entre as incontáveis hortas que se espalham entre as casas da aldeia.
Como é bom se encontrar, fixar com firmeza os pés no futuro. Ah, sim, seria cuidadora, com orgulho!

Mais de uma hora se passa no socorro dos feridos, na aula das crianças mais novas, no cuidado de Lenora aos bebês, nas brincadeiras das crianças mais velhas. Quando Evelyn volta para seu posto na casa da Senhora Salme, Lenora aproveita para ir buscar os irmãos na escola. Segue com eles, de mãos dadas, para o bosque onde os outros brincavam de esconder. Por isso mesmo, não os encontra de imediato:
– Paulinne, Sam, Joshua, Heidi! Vamos encontrar os outros! – propõe num sorriso sapeca.
E assim eles saem, dando risada, bosque adentro. Não sabia que Andrew não estava por lá e sim ajudando os pais a cuidarem dos feridos. Nem que Felix estava no mesmo bosque, mas nem um pouco interessado em suas brincadeiras...

O bosque termina de forma abrupta de frente a um leve precipício muito belo. Permite a vista límpida de uma baixada, onde a paisagem segue ampla, esplendorosa, com o rio correndo entre as montanhas rodeado de pedras que mais parecem esculturas da Deusa. Ah, sim, Ecklacia é linda. A simples visão do fim do bosque desperta um sorriso quase automático e uma vontade de suspirar invade os jovens corações. A verdade, porém, é que não precisavam de nada disso. Apenas por olhar um para o outro os olhos de Felix e Barbara já sorririam e o suspiro já brotaria. Esperaram tanto para estarem sozinhos assim…
A vontade, porém, não evita o nervosismo, e Barbara mais desvia o olhar do que o encara, segurando um riso inconveniente.
– Está usando meu lenço. – Felix finalmente consegue lhe dizer.
– É tão bonito… – Barbara desliza os dedos sobre ele – e macio. Eu gosto desse lenço, gosto mesmo. – seus olhos cor de mel se abrem bastante, como se ele estivesse duvidando e ela tivesse uma necessidade grande que ele acreditasse nisso.
É tímida demais e temia não ter agradecido o suficiente pelo presente que ganhou. Com a voz falhando, as faces macias queimando, ela lhe diz um pouco encolhida:
– Mas eu ainda não sei por que me deu isso. Todos ganharam um presente só e o seu você deu para mim. Eu fiquei com dois presentes e você não ficou com nada.
Felix gosta de tudo nela, até da forma que engasga, como cora até as orelhas quando ele chega perto. Sente que ela se importa, isso faz seu coração bater mais forte:
– Eu não acho que eu tenha ficado sem nada, eu acho que o que ficou para mim é muito melhor do que qualquer presente de caixeiro viajante.
– Mesmo? – levanta os olhos e o vê se aproximar.
Felix sorri, toca seu rosto com delicadeza, sente a temperatura de sua face antes com a pontinha dos dedos, depois com os lábios. Beija com ternura aquela pele macia com cheiro de fruta. Ela não foge, sente até que ela relaxa com o seu toque, isso lhe dá confiança.
Segurando o lenço dela com jeito, o rapaz finalmente se aproxima de seus lábios e sente o ar morno e hesitante que escapa deles:
– Eu fiquei com a menina mais linda de todas. – sussurra e a beija.
Barbara sente o coração disparar, quase perde o equilíbrio, mas o seu lindo Mideline está lá para dar-lhe apoio. Ela permite-se tocar no tórax do rapaz, que denunciava sua respiração forte, e, por mais que aquele beijo não tenha durado mais do que um instante, foi o momento mais intenso da sua vida.
Puxa o ar tentando encontrar palavras, mas, antes que conseguisse, gargalhadas de criança se espalham na mata:
– Shhh! Quieta, Samara! – sussurra Lenora, mas já era tarde porque mais de cinco pirralhos já estavam rindo junto.
Felix e Barbara os procuravam com os olhos ainda mais envergonhados e logo as meninas se apresentam, saltitantes, dançando e rindo:

Quem vai no seu casamento?
O pai da noiva é ciumento!
Quem vai fazer uma festa?
Não pode namorar na floresta!

E saem correndo gargalhando como fadinhas bagunceiras. Felix está carrancudo: por quê? Por que tinha que ser o irmão mais velho de tantos? Barbara deixa a vergonha inicial passar, acaba gargalhando junto e segurando a mão calejada do seu namorado:
– A noiva não tem mais pai ciumento, Felix, não precisa ficar preocupado. – e beija seu rosto.
Felix sorri torto, sem graça, mas muito feliz. Dos irmãos fujões no meio do bosque, o primogênito não quer nem saber. Aquela mão suave na sua é tudo que lhe interessa. Juntos na beira do pequeno precipício, o casal observa as nuvens tempestuosas que começam a se formar no horizonte:
– Meus pais se conheceram numa noite de tempestade. – diz Felix, sentindo a brisa cada vez mais úmida – Disseram que foi a pior que já teve em Ecklacia. E mesmo assim meu pai quis ficar por aqui. – faz carinho em seus cabelos.
– De onde ele veio? Para onde ele estava indo?
Felix sorri:
– Se conseguir descobrir eu te dou um prêmio! Nunca vi alguém fugir tanto de perguntas quanto o velho Jason. Ele só conta o que ele quer. – volta a olhar as nuvens – Mas o que ele quer, não cansa de contar. – desliza a ponta do nariz pela testa de Barbara, deposita um beijo carinhoso sobre seus cabelos – Você quer, Barbara? Quer contar histórias comigo? Quer… fazer uma história junto comigo?
Ela sorri, seus olhos ficam marejados e ela o abraça fechando-os:
– Muito.

Felix não ficou tão nervoso quanto seus irmãos esperavam, não saiu correndo atrás deles como eles queriam. Os pequeninos resmungam quando voltam a se reunir:
– Felix ‘tá muito velho! – reclama Dennis.
Lenora olha ao redor:
– Faz tempo que ele não brinca mais com a gente. Eu só achei que dessa vez ele fosse ficar bravo de verdade… – entorta a boca e coloca uma mecha dos cabelos loiros cacheados atrás da orelha – Está todo mundo aí? Paulinne? Samara? – elas respondem – Joshua! Heidi, Andy? – todos respondem, menos ele, como sempre – Ai, Andy! – bate o pé descalço no chão bufando.
Os irmãos caminham juntos chamando pelo sétimo, enquanto o vento úmido começa a se fazer notar mesmo entre as árvores.

Andy tinha subido numa das árvores que beiram o precipício. As mãos e pés estão bem apoiados, e, apesar do vento estar batendo bem mais forte ali, ele não corre perigo. Seus olhos verdes fixam as nuvens tempestuosas que se aproximam, fascinados pelos raios que acendem e apagam entre a massa escura e densa que caminha devagar no céu.
Que força sagrada anima a eletricidade? Quem orquestra o som dos trovões? Que poder é aquele que faz todos os homens se dobrarem diante dele, indefesos e obedientes?
– Andy! – chama Lenora aos pés da árvore, severa, as mãos na cintura e todos os seus irmãos ao redor – Desce daí, não vê a chuva que vai cair?
Andy os olha, abre um grande sorriso:
– Lenora! Eu, você, todos nós, somos filhos de uma tempestade! Já parou para pensar nisso? – vira-se novamente às nuvens – Nossos pais foram unidos por eletricidade!
– Chega de falar bobagens, Andy! Desce já daí!
– Andy e suas loucuras… – balança a cabeça a pequena Paulinne.
Dennis emenda:
– Toda família tem seu louco, o Andy já decidiu faz tempo ser o da nossa.
Andy franze o cenho:
– Isso não é loucura. Isso é poesia… – sorri.
Lenora o olha bem séria:
– Andy, você tem oito anos. Não sabe o que é poesia.
Ele balança a cabeça, caminha mais para a ponta do galho, deixando a irmã mais velha apreensiva, fazendo uma careta de aflição. Andy só enxerga os raios, respira o ar bem fundo, maravilhado:
– Aquilo ali é poesia. – suspira.
Louco, completamente pirado, é o que pensam seus irmãos. O que ele pensa é que gostaria muito de poder ficar ali vendo aquilo. Queria ser como um passarinho que consegue simplesmente se encolher enquanto assiste a tempestade. Mas sua plateia não ia entender, aliás, eles nunca o entendem. Andy suspira, aperta o tecido da surrada camisa na altura do peito quando ouve mais um trovão e sorri. A Natureza o entende.
Deixa-se escorregar pelos galhos, arranhando um poucos as mãos, mas caindo de pé ao lado de Lenora.
Todos aqueles pés descalços tomam o rumo de casa.

3 comentários:

Marcio R. Gotland disse...

Que bom que o conto retornou! ^^

Pedro Roscoe disse...

muy bueno! muy bueno!

Marco Fischer disse...

Uma história muito interessante essa do livro. E a história de Jason aos poucos vai sendo revelada. Um capítulo cheio de boas surpresas, como sempre ^^