quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Capítulo 3 - "O Conto Noturno"



Faz uma semana que o caixeiro Manfred passou por Ecklacia, trazendo histórias, notícias, canções… livros! Tantos livros, tantos… As crianças passaram a semana inteira com os olhos vivazes grudados naquela infinidade de letras que traziam mundos novos às suas jovens mentes, ampliando-as para muito além da pequena aldeia.
Dragões, reis, rainhas, bruxos alquimistas, poções, feitiços, fadas e encantamentos, ogros, lobos, crianças se perdendo na floresta… Quantas histórias fantásticas enchendo aquela vida simples de sabor! Não que na escola não tivessem conhecido vários livros, mas nada como uma narrativa nova para polir a imaginação e a vinda de Manfred trouxe dezenas delas!
Os irmãos mais novos, que ainda não aprenderam a ler, sentavam ao redor dos mais velhos quando esses voltavam da lavoura e imploravam para que contassem as aventuras extraídas daquelas misteriosas páginas, ainda indecifráveis. Lenora gostava de ler para eles e até interpretava algumas cenas no quarto das meninas, arrancando gargalhadas gostosas no final da tarde.
Naquela vez, porém, quem se dispôs a contar histórias foi Andrew. Convocou a todos que tivessem coragem, para uma sessão noturna no quarto dos garotos.
– Quem for medroso, nem pense em aparecer! – anunciou, com o estranho livro preto fechado embaixo do braço.
Que convite melhor haveria? Quem ali quer ser chamado de medroso? Não, nem Heidi iria admitir esse título, por isso, logo após o recolhimento dos pais para o merecido descanso noturno, pega seu cobertor e sai, junto com as outras meninas, pé ante pé, para entrar no quarto escuro dos rapazes.

– Estão todos aí? – pergunta Andrew, acendendo a vela sobre um pequenino castiçal em cima do beliche, protegendo a chama da própria respiração.
Afirmam que sim, sem quase fazer barulho. Felix, aos pés da cama, pega a vela da mão de Andrew para ele descer. O segundo filho tira seu livro debaixo do surrado travesseiro de penas e pula no meio da pequena plateia que já começava a se sentar.
– Cuidado! Essa história não é para estômagos fracos! – sussurra gravemente, com um sorriso sinistro.
Heidi levanta a mão, quebrando o clima:
– O que é estômago?
Um suspiro reprovador se espalha espontaneamente entre os irmãos que largam os ombros pesadamente.
– Heidi… – reclama Evelyn, que tinha cedido o colo para que ela sentasse – Tem certeza que quer ouvir a história? Acho bom você ir dormir.
– Não! Eu vou ficar muito curiosa! – emburra e cruza os braços.
Andy é mais prático e simplesmente responde sua pergunta:
– Estômago é onde cai a comida que a gente engole, Heidi. Fica na barriga. – sorri e aponta.
– Ah… – ela finge entender, entorta a boca num biquinho e olha a própria barriga, pensativa, mas não faz a menor ideia de por que que um lugar onde cai a comida precisa ser forte só para ela poder ouvir uma história.
Sanada aparentemente a dúvida da pequenina, Andrew toma a vela para si novamente e senta na cama junto de Dennis, abrindo o livro na primeira página:
– Há muitos séculos se conta uma lenda… Desde que o primeiro navio se chocou contra a costa… vazio! – seu rosto adolescente focado pela forte luz da chama já parecia sinistro por si só – Sem capitão, sem comandante, sem tripulação, sem passageiros. Apenas fantasmas no convés. Navios flutuando sozinhos, sem rumo sobre o mar salgado, até se arrebentarem contra as pedras…
– Nas praias de Anelezia? – pergunta espantada Lenora, pois as histórias sempre parecem mais assustadoras quando acontecem próximas.
– Sim! Também! Em várias praias eles foram vistos: navios que partiram lotados dos seus portos, mas cujos passageiros jamais chegaram aos seus destinos…
Os olhinhos se abrem, arregalados, ansiosos pela continuação.
– E o que diz a lenda, Andrew? O que explica isso? – pergunta Evelyn, abraçada a Heidi que, por sua vez, abraçava seu cobertor.
Andrew sorri satisfeito, virando a página:
– Dizem que quando um navio chega ao ponto mais ermo do seu trajeto, quando está tão longe de uma costa quanto da outra e nada pode ser visto ao redor a não ser oceano, quando a madrugada é profunda e todos já foram dormir… então eles chegam.
– Eles quem? – pergunta Joshua, abraçado às próprias pernas, a boca colada ao joelho.
– Três fantasmas de tigres brancos, brilhando como a lua, famintos como a praga, cruéis como o destino dos fracos!
– O que é tigre? – pergunta Heidi, mas dessa vez não era a única a não saber.
Então Andrew vira o livro para eles, iluminando-o com a vela:
– Isso, Heidi, é um tigre!
A figura estampada ali mostrava os três horrendos e ameaçadores felinos brancos, sem listras, com as bocarras abertas cheias de dentes afiados. Os olhos desalmados procuravam por presas, as garras afiadas estavam prontas para cavar a carne dos mortais. Os pequeninos se encolhem enquanto o irmão continua:
– Mas eles não vêm sozinhos…
– Não? – soluça Joshua.
– Não. Eles apenas abrem caminho para um homem. Um homem sem nome que dizem ter renascido do mundo dos mortos com apenas uma vontade… – faz uma pausa longa, olhando para as inocentes crianças – … matar!
Os menores prendem o ar, mas Evelyn e Felix chegam a sorrir pela maneira como Andrew está empolgado em sua missão de assustar. Ele continua, gesticulando muito:
– Com os olhos e os cabelos brancos, longos, escorridos, cheirando à maresia e à cova fresca, ele sobe no convés vestindo nada além de uma longa saia branca, coberta de limo, rasgada pelas conchas do mar, escondendo pernas monstruosas que o fazem andar pendendo, como o próprio navio... devagar... – imita com os ombros o ritmo lento dos passos dele – mas que lhe dão a força para pular muito mais alto que qualquer humano poderia! Suas mãos têm unhas afiadas, duras e mortais. De sua boca escapam presas longas como a dos tigres. – ele vira a página e lá está a ilustração antiquíssima retratando o tal homem fantasmagórico, mas Andrew não deixa que vejam muito, voltando a falar – O que eles vêm buscar nesse navio, vocês perguntam, o que eles querem?
Sim, era isso que eles se perguntavam enquanto a luz tremulava no quarto, fazendo as sombras se projetarem vivas nas paredes, aumentando a impressão de que não estavam sozinhos.
– Eles precisam comer! Eles têm fome! E sabe qual é o alimento deles?
Cabecinhas inocentes balançam hesitantes em negativo, quando, sorrindo, Andrew responde:
– Sangue.
Evelyn ergue as sobrancelhas, agoniada:
– Vampiros? Eles são vampiros?
– Não, maninha, eles são mais que vampiros, eles são Demônios! E a noite em que eles aparecem para varrer os navios e secar todo o sangue de seus ocupantes é chamada de “a noite da Morte Branca”…
– Eu nunca vou subir num navio! – fala Paulinne, aflita.
– Nem eu! – concorda a irmã, sendo seguida por ecos de “nem eu, nem eu”, até que Andrew volta a sorrir.
– Mas não pensem vocês, pobres criancinhas, que a Morte Branca só acontece no mar…
Ah, por quê? Agora os pobres aldeõezinhos tremem!
– Onde mais? – pergunta Andy.
– Em qualquer lugar onde não se possa fugir. Qualquer lugar ermo em que possam caçar mortais em grande quantidade. Um lugar d’aonde possam fugir antes que qualquer pessoa de fora descubra o que fizeram. E que lugar seria mais perfeito que uma pequena aldeia tão afastada do reino… como esta em que vivemos?
– Chega, Andrew! – protesta Evelyn – Nossos irmãos não vão conseguir dormir!
Andrew ri:
– Mas Evelyn, vocês queriam ouvir, eu só estou contando o que li no livr-...
Antes que pudesse terminar, a porta abre rápido, um vento entra cortante pelo quarto e apaga a única vela e os onze - sim, todos eles - gritam apavorados!
– Aaahhh!!!

Então reconhecem o pai, aquele que tinha realmente aberto a porta, e ouvem sua voz firme:
– O que vocês estão fazendo? Andrew! O que é isso?
Ver seu segundo filho agora não daria a entender jamais que ele estava orquestrando os pesadelos dos irmãos, pois seus olhos estão arregalados e ele está pálido:
– Eu…. eu…
– Ele está contando histórias de monstro, pai! – fala Francis – A Samara estava quase fazendo xixi na calça!
– Não estava! – ela diz furiosa.
– Silêncio, vocês! – interrompe – Eu estava perguntando a Andrew, Francis, não gosto quando se pronuncia pelos seus irmãos. Que livro é esse, Andrew?
Como ele sabia? Estava enxergando no escuro?
Andrew, ainda desconcertado, acende a vela novamente e mostra a capa para o pai:
– É a lenda da Morte Branca, papai.
Jason tensiona ainda mais o cenho, preocupado:
– Morte Branca? – sua voz falha – Oh, Céus… Vai encher a cabeça das crianças com… b-besteiras.
Pelo seu olhar, porém, era fácil ver que as palavras não condiziam com os pensamentos. Jason vai até Andrew e pega o livro de sua mão, folheando rapidamente. As gravuras o enchem de calafrios e ele acaba perguntando, como se pensasse alto:
– Aqui fala de Mardock?
Andrew o olha meio de lado, comprimindo um pouco os grandes olhos verdes:
– Mardock?
– O que é Mardock? – diz Heidi, aquela que está acostumada a não saber das coisas e nunca se inibe para perguntar.
– “Quem” é Mardock, Heidi – corrige Evelyn, olhando para Jason – É uma pessoa, não é, papai?
Jason mantém os olhos bem abertos, olha todos os seus filhos reunidos, cobrando dele a resposta. É óbvio que está tenso, tinha acordado agoniado, com um suor frio o cobrindo sobre a cama e veio até ali ouvindo a voz de seu filho contando lendas de horror àqueles a quem daria a vida para manter protegidos. Não, não é hora de falar de nada disso:
– Vão dormir. – fala sério, firme, como sempre é quando precisa – E se não conseguirem, pensem melhor antes de voltar a ler essas bobagens.
Leva o livro embora e os deixa sabendo que seria prontamente atendido. 

Andrew está com o rosto contraído, pensativo, sabe que o pai se aborreceu com ele e detesta quando isso acontece. Felix aperta seu ombro, entortando a boca e suspirando:
– Amanhã você pega o livro de volta.
Andrew concorda e pula para a parte de cima do beliche novamente, os lábios apertados. Os meninos vão voltando para suas camas, as meninas para o seu quarto. Quando Evelyn fecha a porta, as mais novas olhavam para ela:
– Ainda quero saber quem é Mardock. – reclama Samara.
Evelyn balança a cabeça:
– Não vamos aborrecer o papai com perguntas, Sam. – ela vai até a janela para fechá-la, olhando pela última frestinha a imagem de seu pai saindo de casa, angustiado.
Sua filha adolescente agora o via com outros olhos. Jason não era um homem como os outros, ela o estudou, entendeu tudo. Ele fala com as fadas. Ele sabe de muito mais do que demonstra saber. Por que então seu pai não se torna um professor e larga a enxada para quem possa manejá-la? Por que não ensina seus filhos sobre o mundo mágico? Do que Jason está fugindo?

Evelyn podia não saber, mas ele sabia muito bem. Entra na mata novamente, seu refúgio, seu templo. Segue o som do pequeno córrego, encontra-o pelo luar que brilha em suas águas cantantes como diamante precioso. Jason se agacha, molha a mão, passa-a na nuca onde estava seco seu suor.
Seus cabelos cacheados e curtos já estão pontilhados de fios grisalhos, assim como sua barba. Chegou o momento da penúltima transição de sua vida, onde, de um adulto, se tornava agora um velho. Depois dessa, a transição final seria a morte.
Como todo ser vivente, do menor inseto à maior das árvores, o ciclo se repetiria com ele também. É a lei da Vida, a Lei da Mãe Terra e quem a desafia deverá pagar seu preço. Esses seres que se negaram a entregar-se à morte estão atados para sempre à escuridão e dela ninguém poderá salvá-los!
Pega o livro e olha-o furioso, tem vontade de jogá-lo nas águas rasas do córrego. Mas não pode, pois seu filho ficaria muito triste. O livro é dele. Oh, mas por que diabos tinha que ter tocado no nome de Mardock?
Espera que eles esqueçam logo disso. E, se não esquecerem, azar deles, pois de sua boca palavra nenhuma sairá sobre aquele verme. Oh, Céus… Em sua fuga, foi parar no fim do mundo… Fez tudo que podia para se afastar e proteger seus filhos do seu destino e eis que ele reaparece.
Não, isso está em sua cabeça, tudo em sua cabeça. Precisa ter calma e cuidado. Precisa confiar...
A canção das águas começa a refletir ao redor, como se reverberasse nas pedras que ladeiam suas tímidas margens e Jason tenta se tranquilizar. Respira bem fundo, suspira. Não deveria se preocupar. Está fazendo o melhor que pode, o que é certo. Está sendo um bom pai.


5 comentários:

Marcel Gimenes Matiazi disse...

Muito bom esse capitulo!!! Adorei!! Aguardando os proximos!!

Pedro Roscoe disse...

Lí o livro Três e estou acompanhando o livro do Feiticeiro! Estou maravilhado com este mundo que você está criando! Extremamente envolvente! Continue assim! Muito sucesso!

Marco Fischer disse...

Ótimo cliffhanger no final, me deixou bem curioso com a personagem que já vinha sendo bem desenvolvida. O caixeiro me atraiu a atenção também, imaginei ele com alguns traços meio pós-apocalípticos, quem sabe com objetos do nosso tempo escondidos em sua carroça xD Tá realmente bom, continue esse projeto!

Fernanda Nia disse...

Estou adorando! Lindas descrições. E admiro absurdamente a sua capacidade de criar e cuidar com tanto carinho da história de cada personagem (sei que já falei isso, mas não custa repetir, hahahahaha). Parece que não tem um principal. É lindo.

Mariana Teixeira disse...

Não dá nem pra começar a dizer o quanto eu amo histórias com mapas rs
Tadinha da Evelyn, ela fica constrangida.
Acho que ela é minha personagem preferida.
O Andy é um fofinho também, meus queridinhos já estão se desvendando.

Show de bola o capítulo :)