segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Capítulo 6 - "A Última Dança"

 

Em Ekclacia ocorre uma grande comemoração. Um casamento onde muito se bebe, muito se dança, e a espera dos noivos é interminável. São três dias de festa: uma prévia, o do casamento em si, repleto de belos e divertidos rituais coletivos, e mais um de “estica” depois - mas nesse os pobres noivos já estão livres para as tão aguardadas núpcias.
As crianças, que não sabem nada sobre núpcias, querem apenas se divertir. Afinal, suas mães não permitem em nenhuma outra ocasião que elas comam doces o dia inteiro.
E lá estão eles, os confeitos, perfumados e enfeitados por folhas de outono e flores do campo, organizados em tecidos mimosos sobre mesas sem fim. Toda a vizinhança tinha ajudado a elaborá-los, especialmente as mulheres, em rodas recheadas de conselhos nupciais para a jovem Marissa Abhann: a ruiva mais ruiva de Ecklacia, com seus olhos imensos e claríssimos perdidos em um mar de sardas.
– Não o deixe beber todos os dias! – recomendou sobre o noivo Jesse Moya, na ocasião, a senhora Ilome Tristian, separando as pequenas flores purpúreas de um ramo de espinheira real.
– Tente não ter tantos filhos... – segredou Cedes Mideline com cuidado para que as filhas não ouvissem.
– Cuidado com os cogumelos! – alertou Sebes Moya balançando a colher de pau à beira do forno à lenha – Não cozinhe demais! São gostosos, mas podem desarranjar a barriga!
Marissa ouviu tudo com atenção, os imensos olhos arregalados, balançando a cabeça como se fizesse anotações mentais. 
Barbara Caol ouviu também os conselhos, com carinho, enquanto enrolava as massinhas de farinha, açúcar de beterraba e sementes crocantes, deixando para a futura cunhada Evelyn decorar, sempre tão introspectiva que nem parecia ouvir as conversas ao redor. 
A filha da viúva Caol estava se preparando intimamente para quando chegasse a vez de se casar com seu querido Felix. Ah, parecia tão próximo… As primeiras pedras da construção de sua futura casa já estavam sendo firmadas, pouco a pouco, depois de muito escolherem o terreno ideal, baseados até nas configurações astrais. Olga tinha até cedido algumas pedras da própria mureta para adiantar seu sonho. Era uma boa sogra a viúva, o que até andou estimulando Andrew a finalmente falar com Samya.

Na festa, quando a cerveja sobe, ele a tira para dançar, provando que, como dançarino, o segundo filho dos Mideline é um ótimo contador de histórias. Apesar da falta de ritmo, tira sorrisos de Samya quem sabe até mais do que se fizesse os passos direito. 
As rodas são tão bem coreografadas que parecem organismos vivos. Até os mais velhos se arriscam a entrar, embora saiam rápido. Realmente não é tão fácil acompanhar, mas com certeza é muito divertido. Quem sai da roda sai rindo, ofegante. Algumas crianças, como a animada Lenora, parecem não se cansar nunca! Ela pula, dá as mãos a um vizinho para fazer uma volta, depois a um tio, depois à melhor amiga Marien Tristian, depois roda sozinha no centro, gritando e erguendo os braços, espalhando a saia do vestido novo ao redor, faceira. Jason a observa sorrindo, depois de sair da roda pela terceira vez, abatido, pálido. Cedes o observa e o segue.
– Os quarenta anos se aproximam. – ri seu marido, quase sem fôlego, se apoiando curvado sobre uma mesa de doces.
As sombras das bandeirolas penduradas na praça central desenham sobre ele formas vivas e festivas, mas não é isso que a aldeã vê no semblante dele: Jason parece esvaído de energia. Ela sorri com ar preocupado:
– No casamento de Walter e Amelie Jenniz nós dançamos os três dias, sem parar.
Jason senta, o rosto comprimido de dor, deixando a cabeça tombar para trás. Puxa o ar com dificuldade:
– Bons tempos, meu amor. Quanto faz? – puxa o ar – Dez anos?
Dez anos. Isso era o quanto Jason parecia ter envelhecido de um ano para cá. Cedes mantém o cenho tenso, vendo como ele ainda se recusa a falar do que sente. Como se recusa a falar de onde veio e sobre tantas outras coisas. Sua esposa o ama mesmo assim. Não pergunta demais, não se importa. Só não consegue ficar indiferente a essas dores que estão tomando Jason com cada vez mais frequência. Não suporta vê-lo assim. Antes que possa comentar algo, o estrangeiro abre um belo sorriso:
– Lembra do nosso casamento?
Cedes vai abrindo um sorriso devagar, senta ao seu lado:
– Como não? Eu guardei o vestido para Evelyn, mas ela parece não ter pressa…
Jason acaricia o rosto da esposa com as mãos geladas, desmanchando seu sorriso, fazendo voltar a seu rosto a preocupação:
– Cedes… Eu… eu fiz você feliz? Nesses vinte anos… você foi uma mulher feliz?
Ela balança a cabeça, sorri abertamente, segura sua mão, uma lágrima escapa de seus cílios cada vez mais escassos:
– Todos os dias, Jason. – sussurra com os lábios tensos – Todos os dias.

A música persiste, animada. É raro por lá que alguém não saiba tocar algum instrumento, nem que seja a percussão. Os convidados e até os noivos alternam-se para que todos possam dançar e comer quando assim desejarem. Em alguns momentos, porém, quase todos estão tocando, liberando a praça apenas para os mais jovens dançarem. Quando isso acontece a música fica tão poderosa que parece capaz de atrair magia
Andy fecha os olhos em frente ao imenso grupo musical. Inspira fundo, chega a prender o ar e fechar os punhos. O Elemento Ar é tão poderoso quando carregado de sons, pode senti-lo vibrar por dentro de si, até ir parar em seu estômago. É como se comesse música.
Sua irmã mais velha, cujas tranças pendem hoje sobre um formoso vestido lilás, se aproxima por trás e bagunça seus cabelos, parecendo adivinhar seus pensamentos:
– Dá para fingir que é uma criança normal e ir brincar com os outros?
Andy olha para cima ainda ao falar com ela, mas não tanto:
– Eu sou uma criança normal, Evelyn.
Ela sorri, o observa demoradamente. Acha seus olhos verdes tão bonitos, seu olhar tão firme. Seu irmão tem olhos sinceros como os do pai. Olhos que enxergam fadas, pensa:
– Vai brincar então, menino normal. – zomba.
Andy lança um olhar comprido para o grupo de crianças, um pouco tímido. Desde o incidente com o tornado ninguém mais o via como antes, parecia envolto por um véu de… esquisitice. Sabia que o chamavam de mentiroso e de maluco pelas suas costas. Suspira. É difícil ser diferente dentro de um grupo tão pequeno. Volta os olhos para Evelyn que sorri ainda mais, com seu jeito calmo e levemente malicioso de quem parece saber alguma coisa, mas que mantém secreta para seu próprio deleite. Ela, tão quietinha, é bem mais esperta que ele, percebe Andy. Ela vê e ouve as coisas, mas guarda para si. Aprendeu isso com seu pai. Vive seu mundo mágico em silêncio, sem ser julgada. É isso. Silêncio. Andy sorri para Evelyn finalmente, não é preciso dizer nada. Corre para onde estão as outras crianças. Ainda era o primeiro dia de festa.

Evelyn sorri enquanto o irmão se afasta, cruza os braços, tomba a cabeça meio de lado, suspira. Não sabe bem o que ele entendeu do que queria lhe mostrar. Ele é muito jovem, extremamente sincero e nem sempre as pessoas entendem isso. Talvez fosse essa a lição de seu pai: o segredo é a alma da comunicação com os Elementais. Não um segredo ruim, errado, apenas uma necessária discrição. Eles se revelam a quem escolhem se revelar. Os três têm sorte de terem sido escolhidos. Deveriam conversar sobre isso, entre eles, era um sonho seu. Queria ter acesso a todo conhecimento possível sobre esses seres fascinantes, um conhecimento que os livros não lhe dariam. Apenas seu pai, apenas Jason Mideline teria respostas para tudo o que fervilhava na mente da discreta cuidadora.
Evelyn procura o pai com os olhos. Não o vê nas rodas, nem tocando os instrumentos. Vê Lenora dançando, pulando, gritando, ri com ela: sua doidinha… Vê Felix dançando com Barbara, tão mais lento que o resto da roda, num tempo só dos dois, a dança dos apaixonados. Andrew ainda estava acompanhado de Samya, mas já tinha desistido de dançar. Evelyn os vê pegando mais bebida e, do jeito que o irmão gesticulava, com certeza contava uma grandiosa história. Então encontra o pai numa mesa distante, no lado oposto da praça sentado no banco, desmanchado nos braços da mãe, já reunindo alguns vizinhos ao redor. Entreabre os lábios finos, ficando alerta: todos parecem preocupados…
– Pai? – sussurra, assustada – Pai! – grita, atravessando a roda, indo de encontro à cena, acabando por chamar a atenção de forma involuntária de boa parte dos aldeões.

Ao contrário do que receava Andy, um esquisito podia brincar também. Na correria com os vizinhos, as crianças se afastaram do núcleo da aldeia, se aproximando do bosque. Fazem um esconde-esconde imenso, onde as meninas devem encontrar os meninos. Andy se oculta no meio das árvores. Fica em silêncio, observando suas irmãs procurarem e encontrarem seus irmãos. Vangloria-se por ter se escondido tão bem. Sorri satisfeito.


Os minutos se passam, o silêncio vai aumentando, até demais: não daria para ouvir dali a música da praça? É estranho. Tantas crianças estão envolvidas que Andy não sabe se a brincadeira acabou.
O leve som do farfalhar das folhas torna-se mais intenso, como uma deliciosa música de uma orquestra orgânica, e logo aquela sensação que tomou seu corpo no prenúncio do furacão começa a dominá-lo novamente. Andy teme que seja outro tornado, mas antes de se deixar agoniar por isso, ouve um ruído por trás. Pensa ser alguma menina o encontrando. Quando se vira, no entanto, a visão que tem é bela e assustadora: um rapaz com cabelos encaracolados e chifres de carneiro encara-o com seriedade. 
Uma trepadeira está enroscada entre seus cornos, há plantas brotadas de sua pele, e suas pernas são tais como as de um caprino. Imóveis, os dois se encaram, admirados. O que mais tarde Andy saberia ser um Fauno se aproxima. A luz do fim da tarde faz sua pele e pelos cintilarem um dourado maravilhoso.
A voz do irmão mais velho de Andy soa gravemente ao longe e o Fauno olha na direção dos chamados.
– Andy! Andy, onde você está?!
Andy olha também na mesma direção, mas não ousa fazer nenhum som. Quando vira novamente para o Elemental, o mesmo já havia desaparecido. Como por feitiço, Andy sente-se livre para gritar em resposta e corre de encontro ao irmão, Felix, que lhe fala preocupado:
– Andy, venha comigo, nosso pai não está bem.
Os dois andam rápido, correm ao avistar a porta da própria casa tomada por gente que abandonou as festividades para dar seu apoio ao bom Jason. Andy sente as pernas bambearem, a garganta trava de medo. Os jovens entram e veem todos os irmãos dentro do quarto, sua mãe chorando e seu pai moribundo, tão pálido que era quase irreconhecível. Ele avista o sétimo e chama-o com o resto de sua voz:
– Andy… venha cá…
– O que houve, pai? – pergunta aflito, enquanto atende prontamente seu pedido – O que está acontecendo com o senhor?
É um imenso esforço para Jason respondê-lo:
– É esse meu coração, meu querido… ele sempre foi mole, você sabe, – brinca, num sorriso carinhoso, numa tentativa de esconder a dor – mas sempre me serviu direito. Mas parece que hoje, meu filho…
– Não, hoje não! Hoje ele vai trabalhar! Ele tem que trabalhar até em dia de festa, pai! – implora o menino.
Seu pai sorri, toca seu ombro quase sem forças e confidencia:
– Te chamei aqui, meu filho, só para te dizer algo que sei que te importa… Sabe aquela vez, do tornado, ano p-passado?
– Claro, pai. Não consigo esquecer… – responde enxugando as lágrimas.
– Então, Andy, eu só quero que saiba que eu acreditei em você. Eu acreditei desde o princípio. – diante da surpresa do menino, o pai completa – E sabe por quê? Porque você é um menino bom, que não mente. Continue sendo esse bom menino que você é, Andy, nunca dê trabalho para sua mãe…
– Sim, senhor. – resmunga, quase sem segurar o choro.
Tem um terno sorriso como resposta. Sua mãe toma seu lugar ao lado do marido, enquanto Andy vai ficando para trás. Abraça Felix e pergunta:
– Ele também falou com você?
– Falou. Pediu desculpas, porque – soluça – não vai poder ir ao meu casamento. – as lágrimas escorrem pesadamente.
Evelyn soluçava no lado oposto da cama: de que adianta saber curar tantas coisas se não sabe o que seu pai tem? Se não pode fazer nada por ele? Heidi sobe na cama, deita junto ao peito do pai, em prantos:
– Não vá, papai, não vá embora… Nós te amamos tanto!
As lágrimas também escapam dos olhos castanhos do homem que tenta acariciar aqueles cabelos loiros, mas que vê sua força se esvair, como se pequenos choques elétricos causados pela dor de seu peito apertado aliados à falta de ar fossem queimando sua vitalidade, cada vez mais depressa. Seus lábios esbranquiçados não conseguem mais pronunciar qualquer palavra. Era de amor, só de amor que queria falar.
A música dentro daquela casa era agora a orquestra de soluços de onze jovens, uma viúva e tantos outros que Jason conquistou com sua gentileza e carinho. Um homem que veio de longe numa noite de tempestade… Em vinte anos não parecia jamais ter pertencido a qualquer outro lugar. Era nativo de Ecklacia como qualquer outro ali. E lá suas cinzas descansarão.

Jason se vai. Dentro daquele sentimento de impotência e pesar, todos os irmãos crescem muito naquela noite. Em seu sofrido suspiro final, quando os vizinhos começam a deixar a casa e a noite já vem caindo, Evelyn observa os irmãos menores tomarem a cama e acompanharem Heidi, em soluços cada vez menos desesperados e mais sentidos. Joshua, Samara e Paulinne, Andy, que senta no chão e deita a cabeça no colchão sendo seguido por Lenora, Dennis e Francis… Todos parecem derrotados pela dor, exaustos. Barbara tinha ficado, consolava Felix, pois sabia pelo que passava, embora não tivesse sido dessa forma que seu pai a deixara. Andrew abraçava sua mãe, tentava ser forte, mas chorava mais do que ela.
Evelyn caminha devagar até a janela, abre a cortina aos poucos, com cuidado, sentindo algo acalentador no coração.
Ao enfim mirar através do rústico vidro, inspira o ar num susto, abrindo mais os belos olhos, vendo lá fora uma pequena multidão cintilante:
O Fauno visto hoje por Andy coberto de pó brilhante, acompanhado pelo enxame de fadas, agora silencioso, respeitoso. O besouro verde pousado nos cornos de um cervo dourado que se aproxima cauteloso da janela. Evelyn sente uma emoção desconcertante a tomar. Soluça sorrindo um único riso, enquanto as lágrimas chegam a cegá-la, para depois se permitir desabar cobrindo a boca com a ponta dos dedos. Eles vieram buscá-lo… eles vieram buscar seu pai…
 Fecha novamente a cortina e encosta a cabeça na parede desmanchando-se em lágrimas. Era o momento mais lindo e triste de sua vida.






3 comentários:

Fernanda Nia disse...

Linda cena do furacão conversando com Andy. A-D-O-R-O esses pedacinhos de magia surreal que você mistura de vez em quando na história. Lindo. <3

Vanda Maria Meireles Matiazi disse...

Aqui a autora nos mostra como Andy em tenra idade já possui o Dom de falar com os Elementais. Esta cena é mesmo marcante.

Marco Fischer disse...

E desde então tudo ficou em paz... até que a Nação do Fogo atacou.

Mais uma cena magnífica, deu para imaginar tudo com clareza, principalmente os sons. Gosto muito da atmosfera bucólica e mágica da sua história ^^