domingo, 21 de dezembro de 2014

Introdução ao cenário Eliano

Introdução ao cenário Eliano


Devastada pela força da Natureza, devorada pela desesperança no amanhã, a Humanidade vivera séculos de desespero. 
Trituradas pela fúria do céu, varridas pela violência do mar, chacoalhadas pela perturbação da terra, as cidades cediam, uma a uma, esmagando a população a quem deveriam proteger.
Poucos anos bastaram para que a Humanidade se acostumasse a observar com impotência tudo de belo que já havia construído desaparecendo diante de si, sendo reduzido a escombros, e a ver famílias serem retalhadas por aço e concreto, por ventos e águas. 
Os alimentos escassos naqueles tempos de caos acabaram por se tornar, juntamente com a água potável, motivo de guerras, desentendimentos e ocupações entre nações vizinhas. E assim, quantos se foram por fome, sede e violência.
Sempre se considerando mais merecedoras da vida, nações mais fortes esmagavam as mais fracas a quem deveriam ajudar. Não havia lei que reinasse acima da lei da sobrevivência. O Homem regrediu ao seu estado mais primário durante anos incontáveis de desespero. 
Os que eram vitimados pelas catástrofes eram considerados até venturosos, pois a Terra passara de lar a prisão e cada dia nela vivido se tornara uma tortura, uma luta contra a inanição e contra desesperados saqueadores. 

Os ricos matando os pobres, primeiro das nações vizinhas, depois de suas próprias, foram enfrentando a consequência de seus atos. Não bastava eliminar os concorrentes ao pão: era necessário forjar agora o próprio pão. Nem eles, imunes a tudo, conseguiriam evitar sua própria decadência. O supérfluo nunca foi tão supérfluo, a palavra “necessidade” nunca teve antes seu significado tão nítido. Nada mais seria como antes, não, nem para os privilegiados.

Tantas mortes foram resultando, pouco a pouco, numa vida um pouco menos bruta para os poucos que ficaram. Apenas os corações se tornaram cada vez mais machucados. A antiga ambição que movia a Humanidade foi perdendo totalmente o seu sentido diante desse cenário de luto universal. 
As fábricas pararam, pois pouco havia o que vender; os carros pararam, pois poucas estradas havia para que circulassem; as guerras também, pois quem lutaria? Aos poucos, tudo parou.
Deu lugar a uma sociedade silenciosa, de alma ferida, onde pequenos agricultores só produziam para alimentar suas pequenas famílias, na paz que lhes era possível durante o tempo que pudessem viver em uma determinada região. Normalmente acabavam por se mudar em um tempo relativamente curto, quando novas catástrofes naturais se aproximavam. Quando a sobrevivência se tornou um fator de sorte, o dinheiro, apesar de ainda existir, tornou-se completamente secundário e muito difícil era lhe estipular valor. O ontem era lamentável, o amanhã, sempre incerto: o Homem aprendeu, como nunca, a viver seu hoje
Por revolta pelos tantos que se foram e medo dos que ficaram, as armas de fogo foram sumariamente proibidas, assim como tudo que pudesse voluntariamente ameaçar a vida, já tão frágil. Esta se tornou o principal, senão único, patrimônio a que todos deveriam ter direito desde então. 

A capacidade de adaptação do Homem foi admirável e logo as novas gerações não saberiam, senão por histórias, o lugar barulhento, poluído, superpopuloso, repleto de luzes artificiais que a Terra foi, e que não mais anoitecia nas antigas cidades. As funções biológicas humanas foram voltando ao normal: doenças graves que acompanhavam o fim dos tempos desapareceram. Tornaram a ser animais racionais, filhos de Deus e da Terra, mais serenos do que nunca, e aglomerados em aldeias, pois, apesar de tudo, ainda tinham medo da noite. 

A riqueza herdada do passado foi apenas o intelecto. Os novos homens naturais guardaram ideias da ciência, reminiscências dos maquinários, da biologia, da anatomia, da história, além dos erros e acertos da antiga humanidade. Traziam dentro de si a saudade e as cicatrizes de seu “poder”, daquilo que fazia a Humanidade se acreditar soberana sobre o planeta Terra, um de seus maiores erros, aliás. 

As aldeias passam a crescer, devagar, durante outros milênios que se seguem. A Natureza dá sinais de que conseguira se livrar de sua doença, causada por nós, e seu organismo começa a voltar ao normal.
Algumas terras voltam a aparecer por debaixo das águas e novas terras se revelam. Os mapas são inteiramente redesenhados e parecem chegar, enfim, à sua forma definitiva.
A Humanidade está mais segura quanto às intempéries, aumenta seu número, relaxa em seu temor, jamais em seu respeito.
A reaproximação com a Natureza traz consigo um conhecimento há milênios esquecido: a Magia. Religando-se à Terra, o Homem volta a falar sua língua, não a encarando como obstáculo e sim como extensão natural de sua vida.
Os Elementais, reconquistando seu espaço no planeta, começam a se mostrar mais presentes na vida dos humanos, concedendo-lhes conhecimentos sobre o domínio de algumas forças sobre a Terra, sobre o poder da Lua e sobre o clima. Seres que viveram os últimos milênios escondidos voltam a se revelar e conviver de forma relativamente pacífica com a Humanidade. 
Homens e mulheres adentram as matas e compactuam com a Natureza. Responsabilizam-se pela função de tornar nossa integração a ela ainda mais perfeita. Assumem-se como porta-vozes da Terra, tendo assim, para sempre, essa simbiose. A Natureza dá ao Homem o que precisa, mas este nunca quebrará o Pacto entre eles: União e Respeito. 

Tendo esse acordo firmado por pessoas em todos os cantos, assinado como compromisso real, uma nova prosperidade da Terra tem início e logo as aldeias tornam-se reinos. 
Os líderes são, em geral, magos coroados pela população com aval da Natureza, que são fielmente comprometidos em cumprir o Pacto e não permitir que ninguém o desrespeite. Depois desses primeiros escolhidos, o próximo governante viria de sua família, mais precisamente um neto seu: o sétimo filho de seu sétimo filho. E assim, novas dinastias se espalham pelo mundo, prometendo manter esse equilíbrio eternamente. 




Elion 


Em meio às transformações ocorridas na superfície da Terra durante os milênios anteriormente descritos, águas tomaram conta de grande parte dos Continentes por nós conhecidos. Terremotos redesenharam o mapa das terras emersas, guerras deformaram a Crosta. A população se locomoveu em pânico, faminta pela sobrevivência. Durante o incontável tempo assim decorrido, um novo Continente acabou por surgir, devagar, no centro do Mundo Antigo, mais exatamente em meio ao Oceano Atlântico. Vibrante, foi dotado de grandes matas e extensos descampados entremeados por frescos bosques e doces fontes de água límpida. 
Seu nome é Elion e logo a Humanidade teria vida próspera em seu seio majestoso. Tendo o formato semelhante a um coração humano, tornou-se o mais coeso espaço de terra emersa do planeta, favorecendo a formação de diversos reinos, espalhados sobre todo o território.
É sobre o cenário eliano que se passa nossa história. 

A Profecia 


No frescor da nova Terra, apogeu da paz e do equilíbrio entre os povos, feiticeiros de todos os reinos espalhados sobre Elion recebem um chamado, uma profecia, em meio às suas profundas meditações. Eram estas suas palavras: 

No coração do novo coração do mundo 
Nascerá de uma longeva dinastia 
Aquele que com denodo profundo 
Provar-nos-á o que é Magia 

É o sétimo depois do sétimo, 
É o que anuncia a renovação! 
É o Senhor de toda intempérie 
É o Escolhido pelo Furacão! 

Dominará os Céus com seus olhos, 
Com a boca dominará as Almas, 
As Leis, dominará com as mãos! 

Mas seu inflado coração dominará 
Todos os seus sentidos 
E por completo a sua razão… 

De pés no chão e olhar altivo, 
Jamais fugindo do dever, 
De terras distantes será nativo, 
Mas outra terra fará crescer 
Que antes dele não era muito 
E depois quase tudo ela há de ser. 

Jamais se viu, jamais se verá 
E nada parecido vai se conhecer: 
O seu poder pode dominar, 
Céu e Terra a seu bel-prazer. 

Como a água de um temporal 
Muita bonança ele vai trazer 
Mas devastará e espalhará o mal 
Se acaso a medida ele for perder. 

Ele traz consigo os bons ventos do progresso: 
Uma brisa de paz sobre toda nação, 
Mas pode arrastar tudo feito um vendaval funesto 
Pois é quem fora o Escolhido pelo Furacão. 

Enquanto a profecia se espalhava, muitos aguardavam com ansiedade e peito inflado de respeito e temor. Alguns torciam para que chegasse logo o Escolhido, outros para que não estivessem vivos para ver. 

De fato, esses profetas se foram: poucos vivos sabiam quem estava por vir. Todo aquele ruído foi se silenciando, ninguém mais dava atenção àquelas exageradas escrituras. Apenas um mago, um único mago, guardou aquelas palavras. 
Mergulhado em sua alquimia, enganou a morte por quase mil anos e não há prazo para que sua vida acabe. Dizem que fez pactos perniciosos e sua descomunal longevidade custou a vida de muitos outros feiticeiros e mortais. Sua fama atravessou todas as fronteiras e seu orgulho cresceu no mesmo sentido.
Esse bruxo insaciável não poderia dividir o planeta com alguém mais poderoso, não queria ser superado, nem por um instante. Sua curiosidade para conhecer o Escolhido pelo Furacão e sua inatingível força sobre os Céus, as Almas e as Leis deixava-o aflito e era tão grande sua vontade de vê-lo agir, quanto a de impedi-lo. 
Elaborou, sem pressa, uma armadilha para que nada o escapasse ao controle.

Via as gerações passando, devagar, sem alarde, mas com excitação. Quem poderia impedi-lo, afinal, quem vivo lembrar-se-ia daquela profecia ancestral?

8 comentários:

Marcio R. Gotland disse...

Seu texto é conciso e de uma poética interessante. Vou acompanhar e torcer para que seja um sucesso!

Vanda Maria Meireles Matiazi disse...

Adorei Ma, este é o tipo de leitura que eu sempre gostei e a mágica que você dá nas descrições e a poesia que molda cada momento, faz deste teu livro um verdadeiro sucesso.
Estou ansiosa pelo livro completo.
Parabéns uma vez mais.

Piscies disse...

Uau, cenário bem interessante. Eu jogo RPG e este seria um excelente background para uma campanha =D

Gosto da ideia de tudo se passar no nosso plante, com a nossa história tendo acontecido milênios atrás. Isto abre uma brecha para diversas coisas, como, por exemplo, os personagens encontrarem resquícios da civilização antiga.

No início achei que seria um cenário distópico comum, quase clichê, mas conforme você foi se prolongando na história, percebi que sua imaginação ia além do clichê.

Gostei!

Hector disse...

Adorei esse texto, estabeleceu muito bem a ambientação... e ponto de partida da história. Como ja disse vc escreve muito bem.

mid-misha disse...

Gosto da forma como descreve os ambientes ^^. Sua linguagem também é muito boa ^^. A princípio eu achei a temática bastante comum, mas isso não é um empecilho, claro ^^.
Eu li o capítulo 1, mas farei o comentário no post referente xD.

Força e bjos ^^/

Fernanda Nia disse...

Lindo. Você criou um universo riquíssimo com poucas palavras, e isso é admirável.

Minha parte favorita dessa introdução foi o poema. Me senti lendo as músicas espalhadas no meio do livro do Senhor dos Aneis, mas a sua profecia foi muito mais legal, hahahahah.

Adorei!

Mariana Teixeira disse...

A forma como você escreve prendeu a minha atenção.
E o fato de ter uma profecia na história mais ainda.
Eu gostei do contexto, é como se a humanidade tivesse regredido para progredir novamente. Muito bom.
Vou acompanhar essa história com o maior prazer.

Íris disse...

Eeeeeeeeeeee Finalmente comecei a ler!!! Já fiquei super ansiosa...