segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Capítulo 24 - "No Chafariz"


Como era de se esperar, Rose fica encantada pelo chafariz. Senta na borda de pedra do mesmo e descansa ali, olhando as esculturas de mármore verde que contornam o jato d’água: uma ninfa coberta de plantas aquáticas, enlaçada por um fauno, segurando uma serpente do mar, que também parece um dragão. Olhando bem, é sim um dragão, ou será que…
– Gosta do chafariz? – Andy lhe pergunta, em pé ao seu lado.
– Oh! Ah, sim. – responde depois do leve susto, pois não o havia visto chegando.
– Foi o que mais me chamou a atenção nos jardins na primeira vez que os vi.
– Não nasceu aqui?
– Ah, não. Não nasci nem em Elderwood. Sou do Reino de Mourões.
– É mesmo? Ouvi dizer que é repleto de aldeias por lá, todas muito pobres.
Isso prova que ela realmente estuda, pois é muito difícil alguém saber algo sobre seu reino.
– É verdade. Eu era um aldeão. Por dentro ainda sou, sabe? Quem sabe por isso tão… rebelde. – sorri.
– Como era aldeão? Não entendo. – ela fecha um pouco os olhos de uma maneira adorável quando não entende alguma coisa, como se a luz a ofuscasse.
– Quando tinha doze anos me trouxeram para cá porque pertenço à família Real. Sou sétimo filho do sétimo filho de Lucius. Cresci sem saber disso. É uma história bem complicada.
– Doze? E com quantos anos está, Alteza?
– Dezessete. E você?
– Quinze.
– Ainda? – assusta-se – E já querem te casar?
– Minha mãe se casou com treze. – dá de ombros.
– Que absurdo! Devia ser proibido!
– Também acho: por que não faz uma lei contra isso?
– Acho que farei mesmo. Se passar pelo Conselho… – se distrai, pensativo.
Rose observa-o, inclinando a cabeça:
– É tão estranho falar com você, tão diferente.
– Por quê? – senta-se ao seu lado, finalmente.
– Tem apenas dezessete, mas fala como se tivesse trinta, quarenta… é tão maduro.
– E isso é bom?
– Não sei. É que eu não fico muito à vontade. – ela baixa os olhos num sorriso tímido – Preferi te ver rindo aquela hora.
Andy fica sem jeito, sorri. Torce um de seus longos cachos com o dedo, baixando também seus olhos. Molha os lábios e fala:
– Não sou assim sempre, sabe? Embora não tenha amigos da minha idade hoje em dia, eu costumo ser mais leve. – franze as sobrancelhas e continua, com mais gravidade na voz – É que ando muito ocupado e meu avô anda me irritando com essa história de casamento.
– Meu pai também. – suspira.
– Sabe, ele nunca deu a mínima para o que eu fazia, ou como eu estava. Estava tocando minha vida sozinho, até o reino! Será que ele não nota há quanto tempo ele não trabalha? Que as coisas estão vindo todas para minhas mãos? De uma hora para outra ele diz “Andy, você vai casar”. Determina isso. Absurdo! Tenho tanto para fazer antes disso, tanto o que planejar. Construir uma família é uma responsabilidade imensa, eu quero estar pronto para esse dia. Mas de repente ele se torna rude, tenta me obrigar.
Ela ouve atenta seu desabafo, até olha em seus olhos com interesse e fala logo depois:
– Entendo o que quer dizer: eu, por exemplo, só queria me dedicar ao estudo agora, fazer até uma faculdade.
– Faculdade? Ambiciosa. – sorri admirado – Pouquíssimas mulheres conseguem.
– É porque casam! – arregala seus olhos já tão grandes – Não é que não tenham capacidade, entende? É que os maridos não querem que elas estudem, que sejam independentes! Quem vai terminar de pagar estudos pelos quais não se interessa? Todas as moças de família têm que se casar para agradarem seus pais e até para não serem deserdadas. As que não são de família simplesmente não têm de onde tirar recursos para fazer a faculdade! Se você fizesse uma Universidade pública…
– Eu faço! Claro! Sempre quis fazer! – empolga-se – O que pretende cursar?
– Direito. Quero ser juíza. – sorri.
– Bárbaro. Eu quero que você seja juíza! Ou melhor, seja a responsável pelo judiciário no reino, o que acha?
– Seria ótimo, maravilhoso! – seu sorriso se amplia, mas logo sua expressão se torna desconfiada e contida – Você não está falando por falar, está?
Ele não sabe bem por que, de onde veio isso e se tinha mesmo tanta convicção das coisas quanto fez parecer, mas olha bem dentro de seus olhos e diz como diria um rei:
– Rose, um dia verá que eu não falo nada por falar.
A resposta não poderia ser melhor: Rose deixa surgir em seu rosto um lindo e confiante sorriso.
Andy olha-a fascinado: uma garota tão linda, tão jovem, tão doce… vibrando personalidade! É tudo que podia pedir à Deusa! Quando sorri agradecida, esse sorriso é tão amável que Andy sente algo novo ao vê-la assim. Tem vontade de aproximar-se, mas não o faz: ainda é cedo. Seu avô queria provar ter razão pela idade, cismou que sabe o melhor para o neto e Andy não queria jamais dar a razão ao avô! Mas olhe para ela: delicada como uma boneca, de pele tão macia e olhos tão brilhantes.
Rose também se perdia nos olhos do príncipe, verdes e negros, dourados e castanhos, tudo ao mesmo tempo. O brilho do sol na mata fechada. Pergunta:
– De quem herdou seus olhos verdes, Alteza?
– Minha mãe tem olhos verdes – explica – mas são muito claros, não lembram o tom dos meus. A maior parte da minha família tem os olhos castanhos como os seus.
– Comuns. – sorri.
– Não, nem tão comuns. São tantos tons de castanho, sempre lembram coisas boas, não lembram? Terra, madeira, café…
– Chocolate… – sorri a menina.
– Mel, caramelo… – abre o sorriso – Ter olhos castanhos tem suas qualidades, por exemplo: por acharem tão “comuns”, passam a prestar atenção nas outras belezas do rosto, na pele, nos lábios… – Rose fica sem jeito, mas Andy continua – No meu caso, aposto que só olhou meus olhos e é só deles que vai lembrar ao voltar para casa.
– Não é verdade. – conserta-o – Vou me lembrar de sua sagacidade, sua simpatia, sua altura… e seus pés descalços!
Andy sorri. Rose sorri também. De repente um frio na espinha, uma sensação de medo, de insegurança e quase de dor invade a menina. Rose puxa fundo o ar. Levanta-se séria do chafariz avisando:
– Preciso ir.
– Mas agora que estávamos nos conhecendo? – levanta-se também.
– Teremos outras oportunidades. Infelizmente, muitas outras.
– Entendo.
– Preciso estudar, enquanto ainda estudo.
– Rose. – Andy toca em seu ombro fazendo-a voltar-se para ele e ouvi-lo – Mesmo se chegarmos a nos casar, se meus e seus apelos não funcionarem, você vai continuar estudando: isso é uma promessa.
– Verdade? – sorri.
– Verdade: pode escrever isso. Uma futura juíza não pode esperar.
– Obrigada! – Rose dá-lhe um forte e rápido abraço de agradecimento, sendo que com sua altura, alcançasse somente o tórax do rapaz.
Ela sai rápido do jardim, deixando para trás seu futuro noivo encantado. Ele sente o abraço da garota ainda apertar-lhe no peito e um perfume novo no ar.
 Por que dez minutos de conversa num jardim mudariam tanto seu conceito sobre o casamento que viria? Antes do almoço podia jogar-se da janela da torre para não casar, chegou a apanhar uma noite inteira do carrasco para que isso não acontecesse, e olha só o que ela fez com ele: deixou-o de pé ao lado do chafariz, querendo que ela mudasse de ideia, olhasse para ele e voltasse correndo.
Acorda-se se sentindo ridículo. Volta a sentar na borda do chafariz. Lembra-se de quando chegou ao palácio e descansou ali pela primeira vez: cinco anos se passaram, agora é um homem e acaba de conhecer a primeira mulher da sua vida. Não era uma irmã, uma mãe ou uma avó: era uma mulher. Uma menina ainda, mas já era fértil, pronta para dar-lhe filhos, dar-lhe… prazer. Como nunca havia prestado atenção numa coisa dessas antes?
Sua mulher é aquela, não há nem por que procurar outra. Convence-se disso e no meio de seus pensamentos, chega a um último problema: como convencê-la também?

***

Quando Rose chega à mansão, vê que Lorence está por lá, sozinho no escritório do térreo. Sabia que ela não estaria em casa essa tarde, muito menos seu patrão, então por que veio? No fundo ela bem que sabe.
Rose foge das perguntas efusivas da irmã e das empregadas, reclama que só quer tomar um banho e desmontar o figurino primeiro – e é lógico que a intenção é arranjar desculpar sucessivas para fugir ao máximo do assunto. Detesta esses interrogatórios. Mas não vai escapar: vê Lorence olhá-la de longe.
Sorri, faz-se de difícil, deixa no ar um pequeno suspense. Ele, já tomado por ciúme, vai até ela quando, propositalmente, escapa para o jardim mais reservado da imensa mansão e pergunta, como se nem realmente quisesse saber:
– Como foi?
Dá de ombros, como se eventos como esse acontecessem todos os dias:
– Foi bom. A comida estava boa, o palácio é de encher os olhos.
– E o príncipe?
– O príncipe?
– É, o príncipe! Como ele é? – pergunta impaciente.
– Bem… ele também enche os olhos.
– Sério? – pergunta, desanimado.
– Sério. – ela olha em seus olhos sorrindo, passa a mão em seu rosto – Mas não tenha medo, meu amor. Eu te amo e sempre vou te amar. Vou fazer de tudo para que não se cumpra o casamento.
– Por que, Rose? Nunca nos deixarão casar mesmo.
– Eu posso fugir com você, o que acha?
– O que eu acho? – espanta-se – Acho loucura, inconsequência!
– Pensei que você me amasse, Lorence. – decepciona-se Rose.
– E eu pensei que fosse mais esperta! Nunca vai ter outra oportunidade como essa!
– Lorence!
– Ouça, minha querida, – puxa-a à parte – não desperdicemos essa chance. Se se casar com o almofadinha a vida de nós dois vai melhorar! Você será a mulher mais invejada do reino, a mais rica, a mais… tudo, Rose! E você me leva junto para o reino: posso trabalhar com o rei! Ganharei uma fortuna, poderei até comprar um título de nobreza, imagine?
– E nós? – suspira tristemente a donzela.
– Nós? – sorri Lorence – Essa é a parte mais simples! Continuaremos a nos encontrar às escondidas como fazemos hoje em dia. Lucius III morre, o que logo acontecerá e você será rainha. Então seu rei morre um dia desses e você casa comigo, que já serei nobre.
– Vai matar Andy?! – assusta-se.
– Não. Eu, não. – esclarece, chocado por ela ter pensado isso – O tempo vai matá-lo. Como qualquer monarca, sempre há quem queira matar.
A menina baixa os olhos:
– O que você quer dizer com isso tudo é que não vai fugir comigo. – suspira.
– O que eu quis dizer com isso tudo é que você é muito jovem para ter noção da oportunidade que ambos estaríamos perdendo se eu fugisse com você.
Rose olha triste para o chão, pensa um pouco, depois sorri e olha com malícia para Lorence. Fala-lhe com voz de menina:
– Então seremos amantes?
– Os mais safados da História… – sorri Lorence.
Os dois se beijam: o casamento dela, afinal, seria só mais uma etapa no relacionamento dos dois.

***

Dado um tempo depois da partida dos convidados o castelo volta à organização tradicional e Poler pode finalmente ir indagar o protegido sobre tudo. Para sua surpresa, em plena luz do dia, Andy estava em seu quarto, lugar que quase não transita a não ser para dormir. Ele está na sacada, olhando o entardecer chegando pouco a pouco. Ian tenta não o pegar de surpresa nem incomodar seus pensamentos. Coloca-se ao lado do príncipe e olha com ele o gigantesco horizonte. Espera algum consentimento, algum sinal de que podem falar sobre aquilo que Poler tem certeza que Andy já sabe o que é.
O sinal vem claro: Andy suspira. O suspiro é um pouco mais longo e derretido do que o de cansaço. Ian sorri:
– Já vejo que podem negociar o casório.
Sem nem olhá-lo, calma e prazerosamente, Andy completa-o:
– … e começar os projetos da nossa primeira Universidade pública.
– “E”? Mas o que tem uma coisa a ver com a outra?
– Estava pensando nas duas.
– Quem?
– Em Rose e na Universidade.
Poler sorri satisfeito. Ri do rapaz:
– Nem quando decides noivar te esqueces do trabalho?
– Não. – seus olhos não desviam em nenhum momento do horizonte – Não é trabalho, Ian. É porque Rose me pediu.
Poler está espantado com o comportamento de Andy, ao mesmo tempo, feliz. Passa a mão em sua cabeça e sai devagar e sorridente da sacada. Andy chama-o, virando-se para ele:
– Ian!
– O que foi?
– Me faça um favor. – pede preocupado – Não conte para meu avô que estou feliz, está bem?
Poler olha-o sorrindo, pensando: “Como pode ser tão teimoso e orgulhoso esse garoto?”. Faz-lhe um sinal de afirmação. Andy sorri e volta a se distrair com o horizonte, e Ian o deixa a sós com o pôr-do-sol.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Capítulo 23 - "O Almoço"

 

Uma carruagem de quatro cavalos brancos chega à frente do portão do Palácio. O rei Lucius III e a Rainha Emanuelle os aguardam, enquanto os três Conselheiros vão buscar a dama.
Poler se surpreende ao presenciar a abertura da porta da carruagem, se deparando com uma jovem flor, de dourado, com fios brilhando como ouro no meio dos cabelos castanhos. A última vez que viu Rose Harmand ela ainda era uma menininha banguela, de seus sete ou oito anos. Adianta-se ao demais e estende a mão à moça. Ela toca-o suavemente e desce.
Com a leve mão na sua, ele a conduz até a porta do Palácio. A filha do Conde olha tudo em volta, maravilhada, chega até a sorrir. Lembra-se de Poler:
– Sempre trazia convites de festas do castelo para papai, não era?
– É verdade, mas agora subi de posto e assim dificilmente saio do Palácio.
– Faz mesmo tempos que não vai à minha casa. Nosso cachorro, Vítor, morreu.
– É mesmo?
– Sim. Comeu algo de errado o pobrezinho. Mas agora temos uma gata, Bianca. Ela adoraria uma visita sua. Ainda se lembra de como Vítor adorava você?
– Sim, e de como sujava minhas roupas…
A jovem sorri. Cornetas Reais os esperavam junto à porta de entrada do Palácio. É tão bonito para um dia tão triste para Rose. Seu pai vai até ela e pega em sua mão, que o Conselheiro larga docemente.
Harmand quer chegar ao lado da filha. Os três Conselheiros tomam sua frente e entram dando o sinal para a orquestra começar a tocar. Parece um mundo de sonhos para a candidata a princesa. Ela está impressionada: que lugar enorme! Todas as paredes são pintadas com afrescos florais e românticos e aqueles violinos, ah, são como um poema.
Um tempo é dado para os dois observarem como é incrível o lugar. Os empregados estão reunidos e bem vestidos – como empregados. Eles saúdam seus futuros senhores com uma certa satisfação no olhar, pois adoram o glamour dos grandes casamentos Reais.

Andy tenta observar por uma fresta na porta o que está acontecendo lá embaixo. Está agitado. Ainda não enxergou a moça, mas já monta uma imagem mental bem negativa dela: interesseira, deslumbrada, bonita até, mas enfeitada como um pavão. No geral, não é que a imagem sai um pouco parecida com Marguerite Harmand?
Sai dizendo para as empregadas que o aguardavam que precisa ir ao banheiro por um instante, o que é estranho, pois tem um enorme dentro do seu quarto. Assim que ele entra naquele que é o último do corredor, tranca-se lá, e empurra a porta camuflada nos finos azulejos. Desce rapidamente as escadas da passagem secreta.
Ada é surpreendida pela conhecida canção do violino soando dentro de seus umbrais e logo a voz de seu garoto surge docemente:
– Minha mãe?
– Estou aqui, meu anjo, me conte o que aflige seus pensamentos. – responde a velha mulher, em cujo lar há, no total, três entradas secretas.
Andy vai até ela, que estava atrás da única coluna do lugar, sentada. Ao vê-lo, a senhora abre os olhos e sorri:
– Filho! Eu nunca o vi tão bonito! Para que este traje, este perfume?
– Ela está aí. – responde, nada sorridente – Aí no salão. Devo vê-la em alguns minutos.
– E o que faz aqui então?
– Eu tenho… medo. Algo nisso tudo me dá medo, Ada. Sinto como se fosse conhecer o dragão que queimará meu reino, ou o vampiro que sugará meu sangue.
– Chegue mais perto, meu amor. – pede a velha esticando-lhe os fracos braços.
Andy agacha-se e olha em seus olhos cansados. Ada passa as mãos em seu rosto. Tenta confortá-lo com carinho:
– Em nenhum momento concordarei ou aceitarei o que seu avô está fazendo contigo, mas se assim quis o destino não há nada que eu possa fazer para combatê-lo. A única coisa que posso fazer agora é orar por você e pedir que seja forte. Não faça nada de errado, não magoe a moça: um homem honrado não foge da luta, lembre-se disso. Agora vá, que a sua luta nem sequer começou.
Andy sorri agradecendo a boa vontade de Ada: pelo menos alguém concorda com ele. Ele segura as duas mãos da mulher e as beija. Acaricia o que sobrou de seu cabelo e levanta:
– Você não existe, Ada. Obrigado por ser tão amável para mim.
– Ora, meu amor. – sorri a anciã.
Andy se vai pela mesma saída, tocando a mesma canção que ela o cantava. Ada fica emocionada, mas logo seu envelhecido rosto se contrai de tristeza.

Andy volta ao banheiro. Olha-se no grande espelho, um dos tantos dos quais se olhava quando era menor: cresceu, afinal. Quanto tempo passou na infância imaginando como seria quando casasse e como seria sua esposa. Ele quer se casar, mas esse não é o momento. Suspira agoniado.

Rose está curiosíssima para saber como é seu futuro noivo, mesmo que não assuma. Tem medo de uma surpresa ruim. Não para de olhar ao redor com um frio na barriga que só cresce: “Pode ser fome, Rose”, diz a si mesma, tentando conter a ansiedade.
Acha estranho pensar que há uma possibilidade tão grande de acabar vivendo nesse palácio tão fantástico. O rei vai até ela sorrindo, os olhos até compridos demais. Ela o reverencia, enquanto o mesmo comenta com seu pai:
– É mesmo belíssima sua filha, Excelência. Se meu neto tiver um mínimo de bom senso não deixará escapar a oportunidade de casar-se com essa donzela.
– É o que mais espero, Majestade. – orgulha-se o Conde Harmand.
Lucius ordena ao redor:
– Alguém vá chamar o príncipe para que ele conheça sua futura noiva!

Enquanto o esperam, a orquestra toca mais baixo para o rei conversar com os convidados, ainda na entrada da gigantesca sala de visitas do palácio. Poler assiste de longe a conversa, enquanto aguarda a chegada de Andy, temendo que ele faça algum escândalo em nome da liberdade de escolha.
Rose está muito aborrecida com a conversa de seu pai e o rei que mais parecem dois pastores falando de suas cabras campeãs. É quando Lucius interrompe o assunto e fala olhando para a escadaria principal:
– Aí está meu neto! O príncipe Andy!
Rose é tomada por susto, um frio na barriga que quase dói.
Todo o palácio olha para Andy, deixando-o um pouco incomodado, sem jeito, sentindo até as faces aquecerem de timidez, mas logo puxa o ar e volta a descer em direção aos convidados. Christopher Harmand o vê primeiro, pois está na frente da filha, mas ela logo desvia ligeiramente dele e o observa: ele é bonito. Ele é bem bonito.
Fica surpresa, como a maioria ao avistá-lo da primeira vez, com o tom raro de seus olhos verdes, mas também tem a atenção voltada à sua postura, tão respeitável, valorizando sua altura. Não chega aos dois metros ditos anteriormente, seria… um metro e noventa, um pouco mais ou menos que isso. Intriga-se, acha até graça dos seus pés descalços.
Andy não encontra a garota, estranha. Desce devagar os últimos degraus da escadaria. O rei vai até ele, mas o príncipe nem sequer olha em seus olhos. Poler então se aproxima do rapaz e Andy pergunta, formal:
– Quem é?
– Viscondessa? – chama Poler, gentilmente.
Ela sai timidamente de trás do pai indo até o oficial, entendendo que ele irá apresentá-los. Ao olhar para a garota, tão bem arrumada, mas ainda assim mantendo um ar natural, baixinha, de rosto perfeito e delicado, os cachos castanhos passando o quadril, a pele tão suave… Andy é tomado por surpresa. Não sabe exatamente o que sente, mas de repente seu ódio vira susto e seu susto, um desconforto interno: ela é bonita!
Rose reverencia o oficial que sorri e a apresenta a Andy:
– Andy, esta é Rose Harmand. Uma nobre de rara beleza e uma alma valiosa.
– Então é você. – ele diz sério, tentando esconder a admiração.
– Sim, sou eu. – afirma, sem olhar em seus olhos, pois estava um pouco assustada com o quão para cima teria que olhar para ver aquela imensidão verde.
– O que achou dela? – pergunta o rei, que os observava ao lado.
Andy pensa. Olha para Conde Harmand todo inchado como um pombo em plena corte, só falta arrulhar. Olha para seu avô tão inchado quanto o outro e esnoba:
– Ainda é cedo.
Rose fica espantada com a resposta: cedo para que? Para dizer o que achou ou para achar alguma coisa?
Ninguém entende a resposta. Até se entreolham disfarçadamente. Para desfazer o clima desagradável, Ian faz um sinal sutil para o maestro e assim a orquestra toca mais uma música para que iniciem o almoço.
Harmand se adianta à frente junto ao rei e os futuros noivos ficam mais afastados da pressão. Rose resolve olhar para o rosto do príncipe melhor. Logo sua atenção volta-se aos seus longos cabelos castanhos, de cachos grandes, mas um tanto esticados. Ela, mesmo também tentando manter sua pose de desinteresse, não se contém de curiosidade e pergunta:
– Ainda é cedo para que, Alteza?
– Ainda é cedo para qualquer resposta a respeito do que está acontecendo. – responde formal.
Ela, por sua vez, é bem natural quando questiona:
– E o que está acontecendo?
– Como? – não entende.
Nem Andy nem Rose se olham durante a conversa para que não haja comentários sobre a mesma.
– O que está acontecendo aqui? Não estou entendendo. Recebi um convite seu e de seu avô para este almoço e Vossa Alteza parece tão…
– …desgostoso?
– É. Desgostoso. Quase tanto quanto eu.
– Está mais desgostosa que eu? – pergunta, irônico.
Seu tom é cuidadoso:
– Sinto dizer que sim, Alteza.
Andy dá uma gargalhada que chama a atenção de todos, pois não tinham notado o diálogo entre os dois. Rose dá um sorriso só por sugestão da cena.
Andy controla-se dando um longo suspiro e olha finalmente para ela:
– Perdão.
– O que deu em você? – pergunta em voz baixa.
– É que eu não acho realmente que haja alguém mais insatisfeito nisso que eu.
– Ah, é? Quer apostar?
– Apostar? – Andy volta a rir, só que discretamente.
Rose também ri, mas tenta se controlar: assim iria acabar parecendo que estava feliz.

Quando Lucius senta-se à mesa, Andy vai logo se acomodar ao lado da rainha. Os pretendentes se separam e a estranha conversa fica em aberto. Rose vai sentar ao lado do pai e Ian Poler ao lado de Andy.
Arrogante, Christopher pergunta um pouco reticente quando vê os Oficiais tomando seus lugares à mesa:
– Então aqui os funcionários sentam-se junto à mesa do almoço?
Rose morre de vergonha da demonstração gratuita de desprezo para com empregados que ele sempre teve em casa: nunca pensou que fosse fazer isso com os empregados dos outros! Talvez fosse um costume forte demais para que conseguisse conter.
Andy o olha nos olhos – algo que não se recomenda da parte dos monarcas – mostrando toda a revolta que sua frase causou. Oh, o prenúncio do terremoto… Poler morde os lábios, tenta evitar que se manifeste, mas é tarde demais:
–Vossa Excelência deveria sentir-se honrada por isso! Estes funcionários a quem se refere, são Oficiais muito eficientes, além de Conselheiros Reais muito mais importantes para o reino de Elderwood do que Vossa Excelência poderia sonhar em ser um dia.
– Agora chega, Andy. – interrompe-o Lucius nos segundos finais de seu discurso.
– Só estava respondendo à pergunta da sua visita, Majestade.
O Conde dá um sorriso sem graça, enquanto levanta a taça de água próxima ao rosto:
– Claro, claro. Está certíssimo. Sinto-me honrado.
Rose chega tocar os dedos na testa para tentar esconder seu rosto. O clima ficou um tanto desagradável, principalmente por parte dos Oficiais para com Christopher Harmand, a quem receberam tão bem. O nobre está embaraçado, Andy, ofendido, e o rei, por sua vez, tem medo do que mais Andy possa querer falar durante o almoço. Lucius tenta puxar um assunto coletivo com grande ânimo, enquanto Campbell dá o sinal para as copeiras trazerem a entrada:
– Conde Harmand, vejo que trouxera Rose para o almoço, mas o convite era para sua família toda. – o rei gostara muito de Marguerite – O que houve?
– Bem, Majestade, minhas filhas mais velhas estavam com as crianças delas, seus maridos não quiseram intrometer-se a vir sem convite direto do rei…
– Ora, que não seja por isso! Da próxima vez mando um convite para cada uma das famílias! Veja o tamanho dessa mesa!
– É verdade.
– E sua esposa?
– Ela se foi há alguns anos, Majestade. Foi câncer.
– Oh, sempre é. – cochicha Andy para Poler – Nenhum deles assume que parentes morreram de congestão, engasgo, verminose…
– É compreensível – sorri o Conselheiro – ainda mais em um almoço.
– Sinto muito – fala o Lucius para Harmand.
– Eu também. – diz a rainha, em um dos raros momentos em que se dispõe a falar.
Harmand agradece enquanto chegam os pratos, todos muito bem preparados, em prataria da melhor qualidade. Os convidados nunca tinham visto algo de tão bom gosto, nem pratos preparados com tanto cuidado. Claro que Rose dá muito menor importância para isso que o pai. Na verdade tudo que a interessa agora é o que passa na cabeça do príncipe e como essa história vai acabar. Torce para que o pai fale mais um monte de asneiras para desistirem de vez de negociarem seu casamento. Se bem que, se o acordo não for fechado, a culpa virá toda para cima dela.
O almoço começa finalmente. O assunto corre extremamente chato para os dois futuros noivos. Andy olha de tempos em tempos para Rose, assim como Rose para Andy. Mesmo que os dois estivessem impressionados com a beleza do próximo, não querem dar o braço a torcer. Ficam quietos, prestando atenção na conversa:
– Realmente, Majestade – fala Harmand – seu neto superou minhas expectativas: é bonito, elegante e muito inteligente.
Andy arqueia apenas uma sobrancelha e pensa o que ele falaria se conhecesse, por acaso, o lugar onde nasceu. O rei devolve a gentileza.
– Sua filha também tem as mesmas qualidades, pelo menos até agora nada fez que provasse o contrário.
Suave como uma mula. Harmand não se importaria com absolutamente nenhuma indelicadeza Real, desde que consiga fazê-la casar! Floreia a filha, empolgado:
– Mas é a pura verdade, Majestade! Consegue as melhores notas no colégio que cursa! Sua poesia é largamente conhecida e sou muito elogiado pela educação que lhe dei. Fala três línguas diferentes, sabe dançar, bordar, tocar piano e cantar. Só tem me orgulhado até hoje.
Puxa, que incrível, pensa a garota: seu pai nunca a elogiou tanto. Poderia apostar que não sentia orgulho nenhum dela até esse momento. Veja como são os vendedores quando tentam empurrar seus produtos!
– O mesmo não posso dizer de meu neto, sabe? – comenta o rei – É com certeza muito inteligente, toca alguns instrumentos, esgrima muito bem… mas anda se saindo um rapaz muito rebelde.
Andy finge que não falavam dele. Dezenas de respostas se insinuam, porém Andy lembra do que pediu Ada: não machuque a moça. Ela não tem nada a ver com seus conflitos familiares.
Então o Conde dá sua contribuição especial:
– É da idade! Basta domá-los e serão ótimos adultos!
Agora os dois jovens estão revoltados. Rose arrisca-se a dizer:
– Por que pensa isso, Senhor? Não era assim quando jovem?
– Era, mas meus pais me colocaram em meu lugar e sou o que sou graças a eles.
– E é feliz, meu pai?
Todos, menos Andy e Ian, ficam chocados com a pergunta. Andy dá um sorriso de apoio para a garota. Christopher responde para terminar a conversa:
– Que pergunta, menina: claro que sou! Esses jovens…
– Tenho que admitir – sorri Andy – sua filha é mesmo muito inteligente.
O nobre, assim como o rei, percebem que o elogio foi à rebeldia da garota, um estímulo. Os dois pretendentes trocam olhares simpáticos.
Andy começa a perceber que Rose não era a nobre mimada e vazia que esperava que fosse. Ela tinha muitas ideias por dentro, só não podia deixá-las explodir pelo pai dela ser parecido demais com seu avô. Ela escreve poesias! Isso já a deixa muito mais interessante a seus olhos.
Rose percebe que fora notada pelo pretendente depois de tentar expressar-se. Acha esse fato interessante: ele a estimularia se casassem? Seria ele sua liberdade e não sua prisão? Pensa nisso, até começa a ficar um pouco mais tranquila com a ideia do casamento. Então lembra: e Lorence? Não, não pode se casar!
O prato principal chega. Poler nota o ar de satisfação no olhar de Andy. Comenta em voz moderada:
– E agora? Ainda é cedo ou já podes assumir que gostaste dela?
– Não sei, Ian. Diria que a desgosto menos.
– Podes dizer o que quiseres: teu olhar não mente.
– Não sei de nada, Ian. – deixa uma pontinha de sorriso escapar.
Nenhum atrito até terminarem o almoço. Talvez os assuntos tenham seguido mais agradáveis ou talvez os dois jovens simplesmente já não estivessem se importando tanto.

Lucius e Christopher vão para a sala para tomarem o chá e negociarem os últimos detalhes do noivado – afinal, isso é um negócio entre eles –, enquanto Rose vai conhecer os jardins do palácio. Pergunta onde ficam e vai até lá sozinha. Andy segue-a sem deixar rastro.